quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Um avião cai na cabeça de Obama


Aqui no México há pelo menos duas semanas só se falava nas eleições dos EUA. Quando digo "só" é "só" mesmo. Ontem de manhã o taxista que me levava para o Colégio do México me perguntou, ansioso: "E então? Quem a senhora acha que vai ganhar?" Não era necessário que ele me dissesse do que estava falando. Os mexicanos acompanham as eleições como se fossem as de seu país. E é quase isso, considerando a enorme quantidade de imigrantes mexicanos nos EUA, considerando o Nafta, a proximidade geográfica, entre muitas outras coisas.
Todos os canais de notícias estavam preparados para fazer uma supercobertura sobre os resultados eleitorais. Desde cedo, todos os âncoras aqui no México se comunicavam com suas respectivas mesas de comentaristas em Washington.
Pouco depois das 7h da noite chega a notícia de que um aviãzinho tinha caído num dos maiores entroncamentos do complicado trânsito da cidade. Era como se fosse Avenida Rio Branco com Presidente Vargas, mas como se elas ficassem na altura do Jardim de Alah, entre os dois mais elegantes bairros da cidade.
Os dois âncoras da Televisa que estava prontos para dar aquelas enroladas com biografias de Obama e McCain enquanto os resultados das eleições iam saíndo, tiveram que voltar os olhos para a esquina da Reforma com o Perifério, na região onde se encontram os bairros de Polanco e Lomas de Chapultepec.
Como toda cobertura de um acidente desse porte, muita informação e imagem repetida, muito problema de comunicação com os repórteres... E eles estavam preparados para dar a melhor cobertura. Só que de outro grande acontecimento.
A avioneta, descobriu-se depois, era da Secretaria de Gobernación (uma espécie de Casa Civil) e trazia de volta à capital a Dilma Roussef daqui, o secretário Luiz Camilo Mouriño. Amigo pessoal do presidente Calderón, ele era superjovem e foi o negociador do governo durante a complicada e recém-concluída reforma petroleira. Especulava-se que ele deixaria o governo em breve.
Durante a cobertura foi interessante ver, mais uma vez, diferenças culturais entre México e Brasil. Minutos depois da confirmação de que Mouriño estava no avião totalmente destruído, a Televisa começou a receber telefonemas dos maiores líderes dos três principais partidos mexicanos. Todos ligavam para dizer a mesma coisa: que lamentavam a morte de Mouriño, que mandavam condolências à família e ao governo federal. A mensagem do líder do PAN na Câmara de Deputados durou pouco mais de três segundos. Tinha muita gente na fila. Dava a impressão de que a Televisa tinha se convertido naquelas rádios de troca de mensagens das comunidades do Amazonas.
Fiquei pensando se, diante da falta de novas informações e da necesidade de manter a transmissão do fogo nas Lomas de Chapultepec, essa é uma atitude aceitável por parte de um canal de TV. Como parte da minha doença comparativa entre os dois países, fiquei pensando se no Brasil fariam o mesmo.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

¡Que vengan los difuntos!


Estava na hora do almoco tentando explicar para uma colega alema o que vem a ser a nossa festa junina. Me dei conta de como soa extranha a explicacao. Tente fazer o mesmo: pegue um amigo de outro país e tente contar a ele o que se festeja, o que se faz na festa e qual é o motivo disso. Veja a cara esquisita que ele vai fazer.

Pois os mexicanos devem ter uma experiencia ainda mais complicada neste sentido. Em 2 de novembro comemora-se por aqui o Día de Muertos. É quando lembram com festas e homenagens pessoas queridas que já partiram dessa para a melhor. Preparam comidas e deixam as portas abertas para que eles possam entrar em suas casas. Como vêm de "muito longe" chegam cansados e com fome. Tudo deve estar preparado.

Como aquele fenômeno de proliferacao dos ovos de páscoa logo depois que acaba o Carnaval no Brasil, as ruas do México se enchem de esqueletos a partir do dia seguinte das Festas Pátrias de setembro. A primeira vista, parece uma coisa sinistra. Mas as caveirinhas sao muito simpáticas e sorridentes. Com o passar do tempo você comeca a lamentar o fato de o seu país nao ter uma festa tao, tao... simpática, alegre, bem-humorada.

No Día de Muertos se come pan de muerto e se toma chocolate quente, supostamente trazidos por La Catrina. Nas comemoracoes aqui no ITAM, ganhamos caveirinhas de chocolate com "calaveras", como também chamam os versinhos sobre a morte que sao trocados pelas pessoas. Normalmente, me contaram, as calaveras devem ser feitas sob medida para cada pessoa, como se a pessoa já tivesse morrido, descrevendo suas qualidades no pretérito perfeito. Sin-i-i-i-i-stro...


A minha caveirinha, por sorte, veio com uma mensagem semi-personalizada:

"Por aquí pasó la muerte
Con su aguja y su dedal
Remendando sus nagüitas
Para el día del carnaval"

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ahoritita voy


Quando uma pessoa te diz "ahoritita", esse megadiminutivo mexicano de "agora", pode ter certeza de que vai demorar muito mais do que você pensava para ela resolver ou fazer o que te prometeu.
Visto de longe, e especialmente considerando o desenvolvimento das políticas de combate a pobreza (que é o que eu estudo por aqui), o México parece um país muito mais competente, livre de burocracias que o Brasil. Os mínimos detalhes administrativos do Oportunidades, o Bolsa Família daqui, são publicados anualmente no Diário Oficial. Avaliações anuais independentes também são exigidas por lei. Isso tudo me dava a impressão de que a burocracia mexicana funcionava muito bem e bastante a favor da sociedade.
Mas, vejam vocês: ao chegar aqui me deparei com a traumática experiência de tirar a tal Clave Única de Registro de Población, carinhosamente conhecida como "Curp". O dinheiro da bolsa não saía até que eu tivesse o meu maravilhoso numerinho de registro. Devidamente munidos de suas Curps, eu e os demais bolsistas passamos a fazer piada com o episódio que não havia sido nada engraçado. E planejamos mandar um projeto para esse irônico concurso que o governo mexicano lançou há umas semanas.
Se realmente levássemos adiante os nossos planos de submeter o nosso projeto para o concurso, com certeza perderíamos. Existem milhares de processos muito mais complexos e que envolvem muito mais gente.
Mas fiquei fã do concurso. A foto da campanha é primorosa. E o anúncio é tão bem-humorado que você fica sem entender se o "Nos ponemos en tus zapatos!" é ironia ou é pra valer.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Dicionário de chilanguês

A melhor traducao que existe para o "sinistro" do "carioquês" definitivamente vem do "mexicano chilango". "Chingón" pode ser interpretado como uma coisa muito boa ou muito má. Uma pessoa que sabe muito é "chingona" no que sabe. Passar a noite preso pode também ser "chingón". Me parece ser só um pouquinho mais picante do que o "sinistro", já que quase todo mundo que fala "chingón" dá um risinho logo depois.

"Chingada", que acredito que seja a mae de todas as palavras com esse radical, me parece o mesmo que o nosso "sacanagem", mas é um pouco mais leve. O indício que tenho disso é que a palavra foi usada por um dos meus entrevistados na semana passada, um deputado do PRI, para explicar uma pequena alteracao no Bolsa Família mexicano. Ele se desculpou rapidamente e seguiu.

Agora, a coisa que mais me assusta é o "caray". Nao consigo me acostumar com o fato de ele nao ser palavrao por aqui. Hoje tomei mais um susto com ele. O presidente Salinas comecou com "caray" uma frase em que falava da participacao dos pobres em projetos de infraestrutura durante o seu governo. A entrevista, dada aos canais de TV Televisa e TV Azteca em 1994, foi transcrita e ganhou forma de livro. E lá está o "caray".

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Blindados do efeito México

Como é que um prefeito pode dizer isso aí abaixo?? É descarada a atitude partidista. Além do mais, o Brasil precisaria de muito, muito know-how pra isso. Cesar Maia tá precisando ver o filme sobre as eleições mexicanas de 2006. Pra ver como dá trabalho. Pra ver que é necessário comer muito arroz com feijão pra fazer "bem feito".
Maia diz que há planos para fraudar eleições no domingo em favor de Paes
Folha de S. Paulo - 24/10
O prefeito do Rio, Cesar Maia, disse ontem em seu boletim eletrônico que há um plano para fraudar as eleições da cidade a favor do candidato do PMDB, Eduardo Paes, se as pesquisas divulgadas no fim de semana indicarem um quadro de indefinição. Ele diz ter recebido a informação de três fontes das polícias estadual, federal e do Exército.
Segundo o prefeito, a partir das 15h de domingo, mesários receberiam ordens pelo celular para votarem no número 15 [de Eduardo Paes] no lugar dos eleitores ausentes, enquanto outros assinariam os livros.
O TRE-RJ diz que, para ocorrer a fraude, seria necessária participação de um grande número de pessoas, o que seria inviável não ser descoberto.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Susto mútuo

Um estranhamento mútuo que durou cerca de seis segundos no total:
- ¿Qué es eso? - perguntou a caixa de um supermercado Sumesa, depois de olhar as duas extremidades do alho-poró que eu acabava de entregá-la, na tentativa de identificar algum sinal de familiaridade.
- Es un porro - disse eu, meio em tom de interrogacao, como quem nao acredita que ela nao seria capaz de reconhecer essa coisa que se vende aos montes por aqui.
- Poro! - ela consertou rápido, com um sorriso meio constrangido.
- Poro, poro - completei, também constrangida, tentando acalmá-la e corrigir a gafe.

E a Real Academia Española nos socorre:
porro3.
(De or. inca).
1. m. Cigarrillo liado, de marihuana, o de hachís mezclado con tabaco.

poro3.
1. m. Méx. puerro (Planta herbácea anual, de la familia de las Liliáceas, con cebolla alargada y sencilla, tallo de seis a ocho decímetros, hojas planas, largas, estrechas y enteras, y flores en umbela, con pétalos de color blanco rojizo. El bulbo de su raíz es comestible.).

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Representantes do povo

Sete tentativas de contato com a Câmara de Deputados do México (+5255 5036-0000) ao longo de toda esta manha.
"Gracias por llamar a la Cámara de Diputados. Si conoce el número de extensión, márquelo ahora. De lo contrario, espere en la linea y le atenderá un operador.
(...)
Gracias por llamar a la Cámara de Diputados. Si conoce el número de extensión, márquelo ahora. De lo contrario, espere en la linea y le atenderá un operador.
(...)
Gracias por llamar a la Cámara de Diputados. Si conoce el número de extensión, márquelo ahora. De lo contrario, espere en la linea y le atenderá un operador.
(...)
Hasta luego."
Esse "hasta luego" é cheio de tanta ironia que chego a imaginar a mulher que emprestou a voz para a mensagem com dificuldade de gravá-la. De tanto rir.