
Aqui no México há pelo menos duas semanas só se falava nas eleições dos EUA. Quando digo "só" é "só" mesmo. Ontem de manhã o taxista que me levava para o Colégio do México me perguntou, ansioso: "E então? Quem a senhora acha que vai ganhar?" Não era necessário que ele me dissesse do que estava falando. Os mexicanos acompanham as eleições como se fossem as de seu país. E é quase isso, considerando a enorme quantidade de imigrantes mexicanos nos EUA, considerando o Nafta, a proximidade geográfica, entre muitas outras coisas.
Todos os canais de notícias estavam preparados para fazer uma supercobertura sobre os resultados eleitorais. Desde cedo, todos os âncoras aqui no México se comunicavam com suas respectivas mesas de comentaristas em Washington.
Pouco depois das 7h da noite chega a notícia de que um aviãzinho tinha caído num dos maiores entroncamentos do complicado trânsito da cidade. Era como se fosse Avenida Rio Branco com Presidente Vargas, mas como se elas ficassem na altura do Jardim de Alah, entre os dois mais elegantes bairros da cidade.
Os dois âncoras da Televisa que estava prontos para dar aquelas enroladas com biografias de Obama e McCain enquanto os resultados das eleições iam saíndo, tiveram que voltar os olhos para a esquina da Reforma com o Perifério, na região onde se encontram os bairros de Polanco e Lomas de Chapultepec.
Como toda cobertura de um acidente desse porte, muita informação e imagem repetida, muito problema de comunicação com os repórteres... E eles estavam preparados para dar a melhor cobertura. Só que de outro grande acontecimento.
A avioneta, descobriu-se depois, era da Secretaria de Gobernación (uma espécie de Casa Civil) e trazia de volta à capital a Dilma Roussef daqui, o secretário Luiz Camilo Mouriño. Amigo pessoal do presidente Calderón, ele era superjovem e foi o negociador do governo durante a complicada e recém-concluída reforma petroleira. Especulava-se que ele deixaria o governo em breve.
Durante a cobertura foi interessante ver, mais uma vez, diferenças culturais entre México e Brasil. Minutos depois da confirmação de que Mouriño estava no avião totalmente destruído, a Televisa começou a receber telefonemas dos maiores líderes dos três principais partidos mexicanos. Todos ligavam para dizer a mesma coisa: que lamentavam a morte de Mouriño, que mandavam condolências à família e ao governo federal. A mensagem do líder do PAN na Câmara de Deputados durou pouco mais de três segundos. Tinha muita gente na fila. Dava a impressão de que a Televisa tinha se convertido naquelas rádios de troca de mensagens das comunidades do Amazonas.
Fiquei pensando se, diante da falta de novas informações e da necesidade de manter a transmissão do fogo nas Lomas de Chapultepec, essa é uma atitude aceitável por parte de um canal de TV. Como parte da minha doença comparativa entre os dois países, fiquei pensando se no Brasil fariam o mesmo.



