quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Hasta la vista, baby

Depois de pouco mais de 24 horas de Rio já dá saudades de um monte de coisas:
- das flautas de pollo com limão e creme
- da salsa verde
- do croissant com chile e capuccino de café da manhã
- dos anúncios repetidos na televisão
- das gigantes moedas de 10 pesos
- dos "bien, bien" quando se pergunta "como estás?"
- dos 234.452 "güey" que se ouve por dia no "DF".
Depois de um "perdón" que escapou sem querer e de vários quase-"bueno!" para atender telefonemas de boas-vindas dos amigos, já me encontro totalmente readaptada à vida carioca (mas onde foram parar os caras do Vaga Certa?).
Esse blog termina aqui. Agradecendo a companhia dos que acompanharam.


O bêbado e a virgem

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Croissant com feijão

A versão (e aversão!) franco-mexicana de chiclete com banana é vendida da cafeteria do prestigiado Colegio de México. Comi por acidente, porque o feijão vem escondido entre a fatia de presunto e a de queijo. Experiência curiosa, principalmente em se considerando que foi vivida às oito da matina. Seguramente a vez mais cedo que comi feijão na minha vida!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

De Montezuma ao PAN

Falta apenas uma semana para a volta ao Brasil e dá tudo junto: vontade de chegar logo e tomar um mate com limão na praia, medo ao pensar "será que estou me despedindo desse lugar lindo aqui agora?" e é total a correria com os documentos e livros que ainda não foram reunidos. Eis que pula na minha frente um antídoto tranquilizante:


...E eu achando que a minha pesquisa estava ficando muito ampla...

Atole na veia

E lá vai: estou sofrendo muito mais com o frio mexicano do que sofri com o inglês. A temperatura na Cidade do México, enquanto tento escrever este post domando meus dedos endurecidos pelo frio, é de seis graus. E seis graus onde ônibus nao tem calefacao, onde também sao raras as casas com aquecimento central faz bem dura a vida de uma pessoa que tenta acordar cedo para estar em alguma parte da cidade. Facilita muito se ela tiver que tomar o quentíssimo metrô, mas esse nao é o meu caso.
O inverno da Cidade do México faz você finalmente entender o consumo de "atoles" e "tortas de tamal". É o café da manha frugal de um mexicano que faz seu desejum na rua, esperando o ônibus. Os dois têm origem pré-hispânica. O primeiro vem a ser uma bebida viscosa e doce de milho, que muitas vezes leva nozes, canela. O segundo é um sanduíche de pao francês sem miolo cujo recheio é uma espécie de pamonha salgada. Leve, leve.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

La pregunta de los 64 mil pesos

Por que será que com tanto engarrafamento, com tanta obra, com tanta confusao a Cidade do México é praticamente desprovida de motos e motoqueiros??

***
64 mil pesos, ou pouco menos de US$ 5 mil, me parece muito pouco, mas essa é a expressao usada aqui. Vem de um programa de perguntas na TV, das antigas. O cambio mudou e a expressao ficou.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Güey, como dizem "güey", güey!

Meu momento de maior interacao com a juventude mexicana é nas duas curtas viagens diárias no ônibus do ITAM, que faco entre o metrô Miguel Ángel de Quevedo e o campus Río Hondo.
"Güey" é o "cara" mexicano, mas o que me intriga é a quantidade de vezes que ele é usado por frase. Como a palavra é pequenininha, muitas vezes quase nem se nota que ela foi usada. Fica um sonzinho "uei" no final de uma frase ou antes de uma respirada qualquer.
Ontem, voltando pra casa, consegui contar quatro "güeys" em apenas uma frase. Fiquei observando os dois jovens conversando sobre as aulas.
Güey, entre os 20 minutos de conversacao, güey, certamente 10% das palavras usadas, güey, foram "güey", güey.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pelos olhos dos outros

Quando passei em frente ao restaurante "mexicano" mais famoso do Rio de Janeiro com uma amiga mexicana que hospedava apontei o prédio colorido e ela disse:
- Guapo loco?!?! Isso lá e nome de alguma coisa?
Sao dois adjetivos. E nao estou segura de que em espanhol eles tenham a flexibilidade que os nossos em português, comumente transformados em substantivos. O "bonito louco" nao dizia nada para ela. E tive que concordar.
Poucas semanas depois de intensas atividades gastronômicas por aqui, pode-se confirmar também o que todos os mexicanos dizem sobre a "comida mexicana" do exterior: Nao, isso nao é comida mexicana. Aqui no México, "nachos" sao um tira-gosto que se come nos cinemas multiplex e têm toda a apresentacao de coisa que veio dos EUA. Aquelas 1/4 de circunferencias durinhas e crocantes com gosto de milho sao chamadas em seu país de origem pelo simpático nome de "totopos".
Mas as imitacoes e adaptacoes curiosas também sao recíprocas. Morremos de rir quando um amigo mexicano disse que havia ido a um ótimo restaurante de rodizio brasileiro em Veracruz chamado "Jangada". Esperaria ver acarajés, moquecas, mas nao fraldinhas e filé mignons com alho num restaurante com esse nome.

***
Outro dia estava conversando com o meu companheiro de sala (officemate?) sobre a falta de carisma do Alckmin e veio a traducao do seu apelido para o espanhol: "paleta de chayote". Os dois idiomas podem sim ser muito diferentes.

***
Esse mesmo colega outro dia me confessou que "gosta muito do nome de um bairro do Rio de Janeiro".
- Bonsucesso. Quiere decir "buen éxito", verdad?
É legal ver o sotaque de hispanoablantes que realmente têm ouvido para o português. Ontem, quando eu estava me preparando para apresentar um paper num seminario, ele se despediu dizendo "bónsuséasso".

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Um avião cai na cabeça de Obama


Aqui no México há pelo menos duas semanas só se falava nas eleições dos EUA. Quando digo "só" é "só" mesmo. Ontem de manhã o taxista que me levava para o Colégio do México me perguntou, ansioso: "E então? Quem a senhora acha que vai ganhar?" Não era necessário que ele me dissesse do que estava falando. Os mexicanos acompanham as eleições como se fossem as de seu país. E é quase isso, considerando a enorme quantidade de imigrantes mexicanos nos EUA, considerando o Nafta, a proximidade geográfica, entre muitas outras coisas.
Todos os canais de notícias estavam preparados para fazer uma supercobertura sobre os resultados eleitorais. Desde cedo, todos os âncoras aqui no México se comunicavam com suas respectivas mesas de comentaristas em Washington.
Pouco depois das 7h da noite chega a notícia de que um aviãzinho tinha caído num dos maiores entroncamentos do complicado trânsito da cidade. Era como se fosse Avenida Rio Branco com Presidente Vargas, mas como se elas ficassem na altura do Jardim de Alah, entre os dois mais elegantes bairros da cidade.
Os dois âncoras da Televisa que estava prontos para dar aquelas enroladas com biografias de Obama e McCain enquanto os resultados das eleições iam saíndo, tiveram que voltar os olhos para a esquina da Reforma com o Perifério, na região onde se encontram os bairros de Polanco e Lomas de Chapultepec.
Como toda cobertura de um acidente desse porte, muita informação e imagem repetida, muito problema de comunicação com os repórteres... E eles estavam preparados para dar a melhor cobertura. Só que de outro grande acontecimento.
A avioneta, descobriu-se depois, era da Secretaria de Gobernación (uma espécie de Casa Civil) e trazia de volta à capital a Dilma Roussef daqui, o secretário Luiz Camilo Mouriño. Amigo pessoal do presidente Calderón, ele era superjovem e foi o negociador do governo durante a complicada e recém-concluída reforma petroleira. Especulava-se que ele deixaria o governo em breve.
Durante a cobertura foi interessante ver, mais uma vez, diferenças culturais entre México e Brasil. Minutos depois da confirmação de que Mouriño estava no avião totalmente destruído, a Televisa começou a receber telefonemas dos maiores líderes dos três principais partidos mexicanos. Todos ligavam para dizer a mesma coisa: que lamentavam a morte de Mouriño, que mandavam condolências à família e ao governo federal. A mensagem do líder do PAN na Câmara de Deputados durou pouco mais de três segundos. Tinha muita gente na fila. Dava a impressão de que a Televisa tinha se convertido naquelas rádios de troca de mensagens das comunidades do Amazonas.
Fiquei pensando se, diante da falta de novas informações e da necesidade de manter a transmissão do fogo nas Lomas de Chapultepec, essa é uma atitude aceitável por parte de um canal de TV. Como parte da minha doença comparativa entre os dois países, fiquei pensando se no Brasil fariam o mesmo.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

¡Que vengan los difuntos!


Estava na hora do almoco tentando explicar para uma colega alema o que vem a ser a nossa festa junina. Me dei conta de como soa extranha a explicacao. Tente fazer o mesmo: pegue um amigo de outro país e tente contar a ele o que se festeja, o que se faz na festa e qual é o motivo disso. Veja a cara esquisita que ele vai fazer.

Pois os mexicanos devem ter uma experiencia ainda mais complicada neste sentido. Em 2 de novembro comemora-se por aqui o Día de Muertos. É quando lembram com festas e homenagens pessoas queridas que já partiram dessa para a melhor. Preparam comidas e deixam as portas abertas para que eles possam entrar em suas casas. Como vêm de "muito longe" chegam cansados e com fome. Tudo deve estar preparado.

Como aquele fenômeno de proliferacao dos ovos de páscoa logo depois que acaba o Carnaval no Brasil, as ruas do México se enchem de esqueletos a partir do dia seguinte das Festas Pátrias de setembro. A primeira vista, parece uma coisa sinistra. Mas as caveirinhas sao muito simpáticas e sorridentes. Com o passar do tempo você comeca a lamentar o fato de o seu país nao ter uma festa tao, tao... simpática, alegre, bem-humorada.

No Día de Muertos se come pan de muerto e se toma chocolate quente, supostamente trazidos por La Catrina. Nas comemoracoes aqui no ITAM, ganhamos caveirinhas de chocolate com "calaveras", como também chamam os versinhos sobre a morte que sao trocados pelas pessoas. Normalmente, me contaram, as calaveras devem ser feitas sob medida para cada pessoa, como se a pessoa já tivesse morrido, descrevendo suas qualidades no pretérito perfeito. Sin-i-i-i-i-stro...


A minha caveirinha, por sorte, veio com uma mensagem semi-personalizada:

"Por aquí pasó la muerte
Con su aguja y su dedal
Remendando sus nagüitas
Para el día del carnaval"

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ahoritita voy


Quando uma pessoa te diz "ahoritita", esse megadiminutivo mexicano de "agora", pode ter certeza de que vai demorar muito mais do que você pensava para ela resolver ou fazer o que te prometeu.
Visto de longe, e especialmente considerando o desenvolvimento das políticas de combate a pobreza (que é o que eu estudo por aqui), o México parece um país muito mais competente, livre de burocracias que o Brasil. Os mínimos detalhes administrativos do Oportunidades, o Bolsa Família daqui, são publicados anualmente no Diário Oficial. Avaliações anuais independentes também são exigidas por lei. Isso tudo me dava a impressão de que a burocracia mexicana funcionava muito bem e bastante a favor da sociedade.
Mas, vejam vocês: ao chegar aqui me deparei com a traumática experiência de tirar a tal Clave Única de Registro de Población, carinhosamente conhecida como "Curp". O dinheiro da bolsa não saía até que eu tivesse o meu maravilhoso numerinho de registro. Devidamente munidos de suas Curps, eu e os demais bolsistas passamos a fazer piada com o episódio que não havia sido nada engraçado. E planejamos mandar um projeto para esse irônico concurso que o governo mexicano lançou há umas semanas.
Se realmente levássemos adiante os nossos planos de submeter o nosso projeto para o concurso, com certeza perderíamos. Existem milhares de processos muito mais complexos e que envolvem muito mais gente.
Mas fiquei fã do concurso. A foto da campanha é primorosa. E o anúncio é tão bem-humorado que você fica sem entender se o "Nos ponemos en tus zapatos!" é ironia ou é pra valer.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Dicionário de chilanguês

A melhor traducao que existe para o "sinistro" do "carioquês" definitivamente vem do "mexicano chilango". "Chingón" pode ser interpretado como uma coisa muito boa ou muito má. Uma pessoa que sabe muito é "chingona" no que sabe. Passar a noite preso pode também ser "chingón". Me parece ser só um pouquinho mais picante do que o "sinistro", já que quase todo mundo que fala "chingón" dá um risinho logo depois.

"Chingada", que acredito que seja a mae de todas as palavras com esse radical, me parece o mesmo que o nosso "sacanagem", mas é um pouco mais leve. O indício que tenho disso é que a palavra foi usada por um dos meus entrevistados na semana passada, um deputado do PRI, para explicar uma pequena alteracao no Bolsa Família mexicano. Ele se desculpou rapidamente e seguiu.

Agora, a coisa que mais me assusta é o "caray". Nao consigo me acostumar com o fato de ele nao ser palavrao por aqui. Hoje tomei mais um susto com ele. O presidente Salinas comecou com "caray" uma frase em que falava da participacao dos pobres em projetos de infraestrutura durante o seu governo. A entrevista, dada aos canais de TV Televisa e TV Azteca em 1994, foi transcrita e ganhou forma de livro. E lá está o "caray".

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Blindados do efeito México

Como é que um prefeito pode dizer isso aí abaixo?? É descarada a atitude partidista. Além do mais, o Brasil precisaria de muito, muito know-how pra isso. Cesar Maia tá precisando ver o filme sobre as eleições mexicanas de 2006. Pra ver como dá trabalho. Pra ver que é necessário comer muito arroz com feijão pra fazer "bem feito".
Maia diz que há planos para fraudar eleições no domingo em favor de Paes
Folha de S. Paulo - 24/10
O prefeito do Rio, Cesar Maia, disse ontem em seu boletim eletrônico que há um plano para fraudar as eleições da cidade a favor do candidato do PMDB, Eduardo Paes, se as pesquisas divulgadas no fim de semana indicarem um quadro de indefinição. Ele diz ter recebido a informação de três fontes das polícias estadual, federal e do Exército.
Segundo o prefeito, a partir das 15h de domingo, mesários receberiam ordens pelo celular para votarem no número 15 [de Eduardo Paes] no lugar dos eleitores ausentes, enquanto outros assinariam os livros.
O TRE-RJ diz que, para ocorrer a fraude, seria necessária participação de um grande número de pessoas, o que seria inviável não ser descoberto.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Susto mútuo

Um estranhamento mútuo que durou cerca de seis segundos no total:
- ¿Qué es eso? - perguntou a caixa de um supermercado Sumesa, depois de olhar as duas extremidades do alho-poró que eu acabava de entregá-la, na tentativa de identificar algum sinal de familiaridade.
- Es un porro - disse eu, meio em tom de interrogacao, como quem nao acredita que ela nao seria capaz de reconhecer essa coisa que se vende aos montes por aqui.
- Poro! - ela consertou rápido, com um sorriso meio constrangido.
- Poro, poro - completei, também constrangida, tentando acalmá-la e corrigir a gafe.

E a Real Academia Española nos socorre:
porro3.
(De or. inca).
1. m. Cigarrillo liado, de marihuana, o de hachís mezclado con tabaco.

poro3.
1. m. Méx. puerro (Planta herbácea anual, de la familia de las Liliáceas, con cebolla alargada y sencilla, tallo de seis a ocho decímetros, hojas planas, largas, estrechas y enteras, y flores en umbela, con pétalos de color blanco rojizo. El bulbo de su raíz es comestible.).

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Representantes do povo

Sete tentativas de contato com a Câmara de Deputados do México (+5255 5036-0000) ao longo de toda esta manha.
"Gracias por llamar a la Cámara de Diputados. Si conoce el número de extensión, márquelo ahora. De lo contrario, espere en la linea y le atenderá un operador.
(...)
Gracias por llamar a la Cámara de Diputados. Si conoce el número de extensión, márquelo ahora. De lo contrario, espere en la linea y le atenderá un operador.
(...)
Gracias por llamar a la Cámara de Diputados. Si conoce el número de extensión, márquelo ahora. De lo contrario, espere en la linea y le atenderá un operador.
(...)
Hasta luego."
Esse "hasta luego" é cheio de tanta ironia que chego a imaginar a mulher que emprestou a voz para a mensagem com dificuldade de gravá-la. De tanto rir.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Chaveirinhos do mundo


Depois daquele cara fazendo aquela dancinha ridícula pelo mundo (o que eu ainda nao sei se acho deprimente ou genial), apareceu um muito melhor!
O fotógrafo alemao Michael Hughes viaja por aí brincando com os souvenirs daqueles pontos turísticos mais tediosos do Planeta Terra. O slideshow mostra como ele é bem humorado, criativo e até bastante irônico. Destaque para o Titanic. Sensacional.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

As intrometidas vírgulas de respiracao

“En los años setenta, los objetivos de eficacia para satisfacer las necesidades de los sectores más pobres, trajeron consigo medidas orientadas a lograr un conocimiento más preciso de la población objetivo".

"El primer programa que se sustentó con fondos del Banco Mundial a partir de 1973, fue el Programa de Inversiones para el Desarrollo Rural (Pider)".
Os trechos acima foram retirados de um livro publicado pela Miguel Ángel Porrúa, uma das mais conceituadas editoras mexicanas.
A vírgula entre sujeito e predicado é tao mais recorrente por aqui que nos fez pensar que talvez isso nao fosse um erro em espanhol. Sao muitos, muitos os casos em textos acadêmicos, em cartazes de publicidade etc etc. E a minha certeza absoluta de que era erro foi diminuindo na medida em que víamos mais e mais casos.
Hoje perguntei a uma professora do ITAM que tem todo um encanto particular por seu idioma e veio a confirmacao. A vírgula é realmente mal posta. "As pessoas têm essa idéia de que vírgula se poe nas pausas de respiracao".
Comentario muito semelhante aos das nossas professoras de português. Curiosamente - por que será? - isso é um problema muito maior por aqui.

sábado, 4 de outubro de 2008

Feijão maravilha

A relação com a gastronomia mexicana é mil vezes mais de amor do que de ódio, mas ultimamente temos sussurrado entre nós que o cheiro de tortilla de milho e molho picante de todas as esquinas da cidade cansam um pouquinho. E, importante frisar, tenho certeza que vou chorar de saudade quando sentir algo parecido com esse cheiro longe daqui.
As esquisitices da gastronomia mexicana que nos atingem nos momentos indevidos já estão sendo encaradas com uma engraçada resignação:
Hoje fomos tomar café da manhã num lindo pátio interno de um centro cultural a três passos de casa. Pedi um sanduíche quente de queijo com presunto que não havia no menu, já que tentamos fugir dos "platos fuertes" encarados pelos mexicanos antes do meio-dia. O garçon disse que ia ver o que podia fazer. Eu respondi que, se não desse, ele poderia me trazer "uma quesadilla mesmo". O Douglas pediu um omelete de salmão defumado.
Alguns minutos depois chega o meu sanduíche numa linda baguete. Só que os frios vinham (opa!) frios! Nas duas faces internas da baguete tinham passado feijão, o que é muito normal na quesadilla, mas era exatamente o que eu estava querendo evitar.
O omelete do Douglas veio acompanhado de um taco pequenininho e um tamal. Coisa leve! Pra completar, um molho picante que tirava o gosto do normalmente expansivo salmão.
Suspirar... E comer... Não adianta muito reclamar. Como diria Ban-Ban, faz parrrrte.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Tlatelolco



Há exatos 40 anos acontecia o maior e mais triste evento do 68 latino-americano. O massacre de Tlatelcolco é capa de todas as revistas desta semana. Tratam principalmente de tudo que ainda está inexplicado.

Com certeza as imensas e pomposas bandeiras espalhadas pelas delegações da Cidade do México estão hoje a meio pau. É o mínimo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Deu no NYT lá de casa

Tá decidido: cajeta é o melhor doce do Planeta Terra.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Em paz com os podcasts

Em dois meses de México eu finalmente consigo fazer as pazes com as frenéticas atualizações dos meus podcasts preferidos pelo iTunes. Consegui finalmente dar conta das pendências num dia de ótimas descobertas.

Tratando das recentes mudanças na economia americana através intervenções do governo nos últimos dias, o Comment podcast da New Yorker do que dizia o economista estruturalista americano John Kenneth Galbraith: nos Estados Unidos o único tipo de socialismo respeitável é aquele dirigido para os ricos nunca pareceu mais apropriado.

Seguindo meus passos para a universidade ao som dos áudios causualente bem editados, ouvi a entrevista do P.O.V. com o documentarista Roger Weisberg, incansável contador das tristes histórias do sistema de saúde americano. Critical Conditions - que parece mais quadradão e mais sério (nos dois sentidos) que Michael Moore e seu Sicko - acompanha a saga de quatro americanos que trabalharam a vida toda, pagaram impostos corretamente, e que se vêem nas condições mais absurdas quando precisam do Estado por problemas de saúde. Um dos personagens acaba optando por amputar a perna, mesmo esta não sendo a orientação final dos médicos, antes que termine a validade de seu plano de saúde e ele perca qualquer direito a atenção médica.



Outra entrevista do P.O.V. tem uma vibe menos pesada mas fala de um documentário que me pareceu tão ou mais interessante. Calavera Highway parece ser um road movie de dois irmãos mexico-americanos que, antes de enterrar as cinzas da mãe, revisitam momentos delicados de sua história familiar. Uma das diretoras do filme é casada com um dos irmãos e também é filha de imigrantes, japoneses. O filhinho do casal, um nipo-mexico-americano de quatro anos e vozinha simpática, também participa da saga familiar.



E viva os podcasts!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Elefanta no DF

Como diz a apresentadora María Hinojosa no podcast Latino USA, "Ahora permítanme que les cuente algo muy personal". Acabo de receber um email do meu pai que diz o seguinte:
Saiu no Bom Dia Brasil de hoje que um ônibus atropelou uma elefanta aí na cidade do México e que morreram o motorista do ônibus e a elefanta.
Sei que você não poderia ser o motorista de ônibus, mas não falaram o nome da elefanta, nem o que ela fazia.
Ia te telefonar, para ter certeza de que tudo estava ok, mas fiquei aliviado ao ver tua simpática mensagem.
Respondi que se eu não tivesse, na verdade, emagrecido, ele receberia uma resposta malcriada.
No ano passado, quando estava passando três semanas aqui, um ônibus com um monte de camponeses se acidentou no Sul do país e um monte de gente morreu. Meu pai teve reação semelhante, porém relativamente mais séria. Para justificá-la argumentou que sabia que eu estava na Cidade do México, mas que era "a minha cara" estar num ônibus cheio de camponeses no Sul.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Sobre táxis e batons

A violência no México é bem menor (ou diferente) do que a que se pensa que existe quando se lê as notícias de longe. Exatamente como acontece no Rio. Deixo de acreditar nisso momentaneamente quando sem querer dou de cara com o revólver (não tenho muito esse vocabulário) posicionado na cintura do porteiro daqui do vizinho. No primeiro dia que vi acho que ele reparou o susto que tomei porque senti que o "días" do "buenos días" que dei a ele foi inspirado e não expirado.

E falando em crimes,
- Morte por bala perdida parece ser muito raro por aqui;
- Há toda uma lista de "qué hacer?" quando se deseja tomar um táxi. Pegar só os que têm placa iniciada em A, só os que estão ligados a uma empresa, só os que estão deixando alguém. Seqüestros relâmpagos em táxis e otras cositas acontecem frequentemente aqui. Muitos deefeños têm suas histórias traumáticas em táxis para contar;
- Furtos são muito comuns. Em lojas. Se nota isso porque são raros os lugares nos quais vc pode entrar sem ter que deixar a sua mochila num guarda-volumes. O mais engraçado é o fato de a seção de maquiagens e demais apetrechos femininos nos supermercados ser sempre a mais bem vigiada. Há pelo menos dois seguranças em cada corredor e deve-se pagar o esmalte separado das cebolas, antes;
- Me incomodava ter que deixar a bolsa para comprar uma caneta na livraria da universidade. Até que vi um filhinho de papai tentando sair sem pagar um livro imenso que tentava esconder debaixo do casaco. Foi visto pelo segurança e voltou para pagar com um sorriso de quem tinha sido flagrado tentando roubar uma manga no terreno do vizinho. Não há punições, imagino, porque seu pai deve ter muito dinheiro e deve pagar uma mensalidade bastante alta para que ele esteja lá, tentando levar livros debaixo do casaco;
- Se, por um lado, é complicadíssimo entrar num supermercado com uma mochila, por outro, entrar em um banco é bem mais simples que no Brasil. Acho que a onda de roubos a banco nos 90 não chegou até aqui.

A BBC Mundo, serviço da BBC em espanhol, colocou no ar uma interessantíssima série sobre o narcotráfico mexicano. Tem o elogiadíssimo jovem escritor Fabrizio Mejía descrevendo a Narcocultura, tem um vídeo sobre Jesús Malverde, o santo dos traficantes, a história da narcomúsica, com o Tigres del Norte, "os Beatles do gênero narcocorridos", e muito mais. Valeu pelo link, Fernandita!

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Bahia e México

Além da comida apimentada que os locais cismam em dizer que "no pica mucho", a chuva também tem hora marcada pra chover aqui. É forte e dura pouco. E é tão engraçada a sua pontualidade que com o tempo você a vê até com camaradagem. Nem dá pra se irritar.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Alicia também mora aqui

Desde que cheguei, há mais de um mês e meio, "La Casa de Alicia" tem horários fixos na Cineteca Nacional. "Cocalero", que chegou há apenas duas semanas, tem atualmente a mesma quantidade diária de sessoes que ela.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

El grito

Parece um equivalente ao nosso Reveillon. O país todo pára e se dirige a um ponto específico da cidade, onde haverá shows e queima de fogos. No dia seguinte, as semelhanças ironicamente continuam: pelo menos oito mortos, vítimas de explosões no meio dos festejos. Ainda não houve maiores esclarecimentos sobre o aparente atentado durante as comemorações pelo grito da independência em Morelia, que ganhou este nome por ter sido a cidade natal de um dos heróis, veja, da independência, José María Morelos.

As comemorações do grito aqui na capital aconteceram, talvez como em todos os anos anteriores, sob altíssimo policiamento. Para entrar no Zócalo, onde tanto o presidente Calderón quanto o presidente "legítimo" Obrador fariam seus gritos, toda a população foi revistada como num show de rock.

Me impressiona muito a importância dessa festa, o forte orgulho que o mexicano, pelo menos nessa data, não tenta esconder de ter nascido aqui. Nesse sentido, parecem-se com os brasileiros durante a Copa do Mundo. Até a bochecha pintada com as cores da bandeira é igualzinha.

Acompanhando a cidade progressivamente se pintar de verde, vermelho e branco durante as últimas três semanas, vim desenvolvendo minhas hipóteses para explicar o fenômeno: (1) Muita repressão durante o regime colonial e um extenso período de verdadeiros combates pela independência poderiam explicar porque o 16 de setembro daqui é tão mais festejado que o 7 de setembro daí; (2) Depois me veio a idéia, muito mais simplória, de que talvez essa fosse mais uma maneira que os mexicanos arrumaram de imitar os americanos: também queriam o seu 4 de julho.

Mas não. Parece que a maior explicação para tudo pode ser entendida a partir do grande promotor desse nacionalismo. Seu nome é Partido Revolucionário Institucional. Há quem diga que ao dizer que "ser mexicano é ser nacionalista e apoiar o partido do país", o PRI ia estendendo seus anos de apoio popular. É o partido com as cores da bandeira, obviamente.

Por muitos e muitos motivos cujas descrições tornariam esse post mais extenso ainda, é interessante notar como o nacionalismo me parece um conceito muito, mas muito mais mexicano do que brasileiro. Lendo discursos dos presidentes mais recentes para a pesquisa, encontrei algumas preciosidades que tentam relacionar "manutenção dos ideais da Revolução Mexicana" com a "necessidade de privatizações das empresas públicas".

Nesse trecho abaixo, durante a entrega de seu terceiro infome de governo, Salinas relaciona a implantação de seu criticadíssimo programa Solidaridad ao sempre presente nacionalismo mexicano, que naquele momento passava a ser constantemente associado, que ironia, à necessidade das reformas econômicas.
Por eso, el nuevo nacionalismo de la última década del siglo XX debe convertir en interés nacional el abatimiento de la pobreza. Los sentimientos nacionalistas, como elementos de cohesión social, son, por ello, sentimientos de solidaridad. No es extraño que el lema del combate a la pobreza extrema sea precisamente el de "solidaridad". El objetivo es asegurar la viabilidad económica y la estabilidad política en un clima de amplias libertades, como condición indispensable para emprender lo importante. Esto significa integrar en forma masiva a la población en la vida activa, económica y política de la nación. Dicho sencillamente, se trata de lograr mayor justicia: justicia social. Esta justicia no puede reducirse a un mero esquema redistributivo de transferencia de recursos. El nacionalismo demanda la participación organizada. La mejor distribución del ingreso y la promoción de la justicia constituyen compromisos irrenunciables del Estado mexicano. El nacionalismo de la última década del siglo es democrático, participativo, tolerante, defensor de libertades, productivo y promotor de la justicia en la realización del interés nacional.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"Slim no da paso sin huarache"


Huarache: 1. m. Méx. guarache.
Guarache: (Del tarasco kuarache). 1. m. Méx. Especie de sandalia tosca de cuero.
A frase do título, tirada do texto de Samuel García, em sua coluna publicada pelo Milenio, se refere aa compra de 6,4% das acoes do New York Times pelo segundo homem mais rico do mundo, o mexicano Carlos Slim. García também diz:
"Mas allá de si a Slim le interesa en serio el NYT como negocio, su participación y la de sus hijos en el directorio accionario de la compañía estadunidense le permitirá acercarse a uno de los gigantes de los contenidos en el mundo y evaluar —desde una posición privilegiada— las decisiones que deberá tomar en el futuro cercano sobre las alternativas para consolidar la construcción del mayor proyecto integral —una especie de gigantesco “closter”— de telecomunicaciones y contenidos de la región y del mundo".
Por aí, Slim é o dono da bola na Embratel, através da também sua Telmex, e segue trabalhando.

Por aqui, quase tudo é dele. Sua loja de departamento Sanborns tem uma filial em cada esquina. E acho engracado como grande parte dos caóticos peseros - o meio de transporte mais popular da Cidade do México - indica no cartaz exposto no pára-brisas que o Sanborns faz parte de seu trajeto. Resta saber qual dos milhares espalhados por essa pequenininha cidade. Ou talvez isso nem importe mesmo...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O que foi, comeca a voltar


Saiu hoje no Christian Science Monitor, que tem esse nome horrível, mas algumas ótimas matérias: manufaturas comecam a voltar da China para o México. As pressoes por aumento de salário por parte dos trabalhadores chineses, que já nao eram sem tempo, e os altos precos do petróleo, que encarecem o transporte dos produtos, parecem ser os dois principais motivos para essas aparentemente boas notícias. A companhia de artigos de impressao Lexmark é uma das que já estao de regresso.

Mas é claro que o movimento é apenas inicial. Há algumas semanas, o mesmo jornal publicou uma matéria sobre as Chacos, sandálias até entao politicamente corretas, que sucumbiram aa guerra dos precos. Sua fábrica ruma dos EUA aa China, onde os custos de producao por par, incluindo transporte, sao cinco dólares mais baixos. A matéria conta que atualmente apenas 1% dos sapatos comprados nos EUA sao produzidos no país. E a grande maioria você já sabe de onde vem.

Sobre a "invasao chinesa", um filme e um livro me despertaram especial interesse. O documentário "Losers and Winers" mostra uma fábrica com toda a aura social-democrata sendo desmontada na Alemanha e, literalmente, sendo transportada para a China. O trailer, com legenda em português, pode ser visto aqui. No livro "A Year Without ´Made in China´", uma jornalista americana conta como sua família sobreviveu um ano fazendo o exercício de nao comprar nada que fosse produzido do lado de lá.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Vou para a Juárez, por favor


Não é fácil ganhar intimidade com os endereços na Cidade do México. Além de ser absurdamente grande - e ainda mais grande se se imagina que há mais 18 milhões de habitantes e que são raros os prédios altos -, el D.F. traz uma charmosa (e às vezes irritante) peculiaridade. Das suas 85 mil ruas, cerca de 8 mil se chamam Juárez, 7 mil, Hidalgo, e 700 são Morelos. Assim como Londres, a cidade se formou pela união de pequenos pueblos que, por falta de criatividade ou por patriotismo em excesso, davam os mesmos nomes às suas ruas.

Cheguei aqui já relativamente ciente disso (graças às três semanas que havia passado na cidade no ano passado) e pedi que o motorista de táxi me levasse à Av. Mexico na colonia Del Carmen. Sua resposta: "Del Carmen de qual delegação?" Eu ainda precisava ser mais específica.

Moramos na Avenida Progreso. A Guía Roji, valiosíssima aquisição para aqueles que querem tentar ficar menos perdidos na cidade, indica a existência de pelo menos 168 com esse nome. Limitando a busca à delegação Coyoacan, ficamos com "apenas" cinco casos.

Complicado mas fascinante para aqueles que adoram mapas.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Leite do medo

Essa nova campanha do Ninho daqui está bem em dia com todo o debate sobre (a falta de) segurança no país e tal. Mas desperta mais vontade de sair correndo com o seu filho do que de comprar o leite, né não?


O pai parece um pouco menos tenso que a mãe, mas o distintivo assustador continua lá.

Gente, não é pra tanto.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

El idioma de Zapata

Tenho me divertido muito observando (e tentando aprender) o espanhol mexicano entre alguns simpáticos elogios ao meu desempenho e episódios nao tao prazerosos como o comentário do diretor (inglês!) do departamento ao fim da minha apresentacao de projeto: eu havia falado "duas ou três palavras de portunhol". No meio daquela reuniao formal de trabalho, cercada por todos os professores do Departamento de Estudos Internacionais, considerei o comentário como uma piada mal-sucedida, típica dos que tentam ser engracados a cada cinco palavras.

***
Uma das primeiras coisas que me chamou a atencao desde que cheguei aqui é a grande quantidade de "buen día" que se usa no lugar de "buenos días". Procurei mais detalhes sobre a distincao em várias páginas de tremenda confiabilidade como essa e acho que vale a resposta de que os dois usos sao corretos e o que varia é a regiao.

***
Entre as novas palavras, a que mais me desperta simpatia é "órale". Seria uma versao menos conhecida e mais informal, acho, de "ándale". Pelo que tenho observado, o uso que faz o Ligeirinho nao é o mais comum. "Ándale" (e "órale") é um equivalente do "prego" italiano, mas também serve como um simples "ok". Muita gente as usa para encerrar conversas telefônicas, num equivalente ao nosso "tá bom, tá bom".

***
Tenho sentido saudade de tortas salgadas, quiches e empadoes. Nao sao comuns por aqui. Acho que por isso ainda é automático um sorriso de satisfacao quando eu leio "torta de pollo" nos letreiros pela cidade. Após averiguacoes iniciais, descobri que torta era "uma espécie de sanduíche". Pesquisas mais avancadas me levaram a descobrir que a diferenca entre os dois é apenas o tipo de pao. Continuo procurando sem sucesso empadoes nos hipermercados mexicanos.

***
- Me saludas a tu mamá.
- De tu parte.
Na segunda vez que ouvi essa resposta esquisita, fui procurar informacao. Minhas fontes dizem que é uma maneira de dizer "ouvi o que você disse, agradeco e farei o que voce me pede". Curioso, curioso...

***
Acho que encontrei um sinônimo para "malandro" em espanhol. Pelo menos no espanhol mexicano. "Huevón" é um sujeito preguicoso e que se orgulha disso. E pode ser utilizado no bom e no mau sentido.

***
E da série nada a ver, mas que nao dá pra ignorar:
Que maneira mais linda de se comecar uma carreira profissional!
E onde será que vai parar o Starbucks, hein?

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O "fim" do Informe

O ritual de todo 1° de setembro havia passado de um extremo ao outro. Se até o fim da década de 80 a entrega do Informe de Governo aos deputados era conhecida como "o dia do presidente", tornou-se o dia dos insultos de 1988 em diante. As mudancas mostravam o crescimento do poder da oposicao no Congresso.



O pronunciamento do entao presidente Miguel de la Madrid (no vídeo acima) foi o primeiro a ser interrompido pela oposicao, cena que seria repetida com Salinas, com Zedillo, com Fox e com Calderón. As vaias, gritos e demais insultos se tornaram cada vez mais externos e fortes até que, em 2006, Fox teve que entregar o Informe numa tumultuada sessao no lobby da Câmara de Deputados (abaixo).


Meses atrás o Executivo e o Legislativo estabeleceram em um acordo político liberando o presidente de realizar o "State of the Union" daqui e determinando que ele poderia se limitar a enviar o documento a Câmara por um representante. A decisao foi estranhamente tratada de maneira positiva pelo Universal.
Ontem, o Segundo Informe de Governo da gestao Calderón foi entregue ao presidente da mesa diretora da Câmara, César Horacio Duarte, pelo secretário de governo, Juan Camilo Mouriño, num evento que durou oito minutos (abaixo).


Hoje, o Milenio traz um ótimo artigo, assinado por Héctor Aguillar Camín, que argumenta que o processo de democratizacao do país ironicamente perdeu sem querer um bom mecanismo de prestacao de contas.

domingo, 31 de agosto de 2008

É mole?



É ou não é um primor de correção política?? Um (dodgy) ricaço loiro em seu Dodge escapa sorridente do limpador de vidros com traços indígenas que o trata por usted. Saiu, veja só, na (ótima) Chilango.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Dia do Índio

São muitos os que dizem que a nossa Constituição é linda no papel, mas que poucos direitos ela pôde realmente garantir. É de se comemorar, então, um dia como o de ontem. Que isso sirva de inspiração (ou de intimidação) não só para o resto dos que tomam decisões pelos brasileiros. Que também se ouça falar disso nesse país aí ao lado, que tenta resolver problemas de institucionalidade e de injustiças sociais, mas que esbarra em resistências proporcionalmente até bem maiores.
Dia do Índio no Supremo
Marcelo Leite
Folha de S. Paulo

ONTEM FOI Dia do Índio no Supremo Tribunal Federal (STF). Nada impede que mais à frente o julgamento da demarcação da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol (TIRSS) acabe num Dia do Arrozeiro, mas tal desfecho parece agora menos provável.
O voto do relator Carlos Ayres Britto veio com ímpeto demolidor. Britto não se limitou a declarar a improcedência da ação popular. Tratorou, um por um, os débeis argumentos alinhavados na ação movida no interesse de meia dúzia de fazendeiros de arroz.
Para o relator, não faz sentido falar em subtração de áreas a uma unidade da Federação, pois os índios já estavam lá antes da criação do Estado de Roraima. Seu direito à terra é originário, reza a Constituição. Os rizicultores só multiplicaram plantações depois de 1992, mas o processo de demarcação começou em 1977. Os índios foram enxotados e escorraçados, no que descreveu como "espremedura topográfica".
Terras indígenas não são territórios, deixa claro a Constituição. Ela é que garante seu usufruto pelos índios brasileiros, que não precisam de uma Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas. Demarcação e homologação são meros atos declaratórios, reconhecimento de um direito preexistente.
O laudo antropológico que atesta a ocupação contínua e pacífica pelas cinco etnias não merece ser qualificado como fraude ou generalidade. Toda a metodologia prescrita na legislação foi seguida. O contraditório e o direito de defesa foram amplamente exercidos.
Índios não atrapalham o desenvolvimento. Não impedem a defesa de fronteiras -ao contrário. E por aí foi...
O ponto alto do relatório, porém, foi o reiterado elogio à generosidade da Constituição de 1988 com os índios. Britto afirmou que ela se encontra na vanguarda mundial por "não antagonizar colonização e indigenato" e pautar-se por um espírito fraternal e solidário, contra o "ignominioso preconceito" antiindígena.
Encarando de frente aqueles que vêem nos índios um sinônimo de atraso, disse que a Constituição nos redime perante nós mesmos de uma insensatez histórica, só comparável à escravidão. Disse mais: que nos índios está o primeiro elo da identidade nacional. E que o "doravante" de Roraima não apaga o seu "desde sempre".
Era tudo que os "civilizados com aspas" não queriam ouvir. Carlos Alberto Menezes Direito pediu vistas. O Dia do Arrozeiro fica adiado, e pode talvez nunca chegar.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Um pouco mais ao norte

Pela descrição dos jornais e pelo que se vê em filmes, Tijuana parece a versão comtemporânea das cidades de faroeste. Tijuaneados Anónimos é uma associação de pessoas que vivem na cidade e se encontram para falar das dificuldades da vida cercada pela forte presença do tráfico de drogas. Comando Vermelho parece ser fichinha.



O Museo de Arte de San Diego, a vizinha do norte, exibiu até junho uma réplica da sala das sessões do grupo.



esse pessoal se expressa de outra maneira. O Nortec Collective é um grupo de músicos da cidade que mistura sons noteños com as modernidades da música eletrônica. Tem umas coisas não muito boas, mas eu gostei muito da Funky Tamazula. Pode-se ouvir uma partezinha dela aqui.

domingo, 24 de agosto de 2008

O outro lado

A sensação na saída do cinema foi de embaraço pela descoberta (mais uma vez!) de que mesmo quando se lê muito pode-se não estar tão bem informado quanto se pensa. Muitas vezes, até, acontece exatamente o contrário.
Fraude: México 2006 é "um filme de milhões de mexicanos, dirigido por Luis Mandoki". Assim o apresentam seus produtores.
O filme, claramente partidário do PRD e da eleição de Lopez Obrador, usa imagens feitas por pelos menos 19 pessoas (contamos, durante a subida dos créditos) para mostrar a fragilidade hedionda do sistema eleitoral mexicano, omitida por TVs e jornais de grande circulação. Um quebra-cabeça belamente montado com um material bruto que somava mais de 300 horas de imagens reunidas de várias partes do país durante a contagem e a "recontagem" dos votos.

Abaixo, os primeiros minutos do filme:

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Bom de ler

Soterrada por livros acadêmicos, páginas de Diário Oficial e discursos de políticos, me senti feliz em poder dar uma respirada lendo uma narrativa mais amigável e nem por isso menos interessante."Opening Mexico: The making of a democracy" conta através da história de pessoas comuns o processo de democratização do país. O livro começa narrando a noite passada em claro por Conchalupe, uma mulher Monterrey que no dia seguinte seria observadora voluntária das eleições de 2000. O histórico momento em que os mexicanos encerraram, nas urnas, as mais de sete décadas de "dinastia PRI" é contado pelos olhos desta neta de um dos quatro políticos da oposição que, em 1946, haviam pela primeira vez conquistado assentos no Congresso Federal. Na época de seu avô "a hegemonia priista era tão sólida que muitos acham que apenas loucos ou masoquistas poderiam querer concorrer aos cargos". Julia Preston e Samuel Dillon são premiados repórteres do New York Times e seu livro mostra a intimidade que têm com a complicada política mexicana.

Post inspirado na chegada do Douglas e nas muitas parcerias que se originaram no trabalho - e seguiram para a vida - que vemos por aí. A partir de hoje, passo a narrar algumas coisas nesse blog na primeira pessoa do plural. :-)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Nem tão Papai Noel, nem tão grande conquista

Clóvis Rossi citando Oppenheimer elogiosamente eu não esperava, mas vale a leitura. Saiu hoje, na Folha de S. Paulo:
Visita ao país dos ricos mais ricos
Clóvis Rossi
SANTANDER - Já tratei recentemente, neste espaço, da lenda da queda da desigualdade e dos números da miséria brasileira, explicitada em pesquisa que o Ibase (a ONG do Betinho) fez com os beneficiados pela Bolsa Família.
Faltava só visitar os ricos.
Andrés Oppenheimer ("Miami Herald", prêmio Pullitzer) se antecipou e mostra o que só pode ser surpresa para os que acreditam em duendes ou na lenda da queda da desigualdade.
Vejamos os dados por ele coletados no "Informe Mundial da Riqueza-2008", preparado por Capgemini e Merrill Lynch:
1 - Os ricos da América Latina estão enriquecendo mais rapidamente que seus pares de todas as demais regiões do mundo e já acumularam US$ 6,2 bilhões em valores financeiros, sem contar imóveis e coleções de arte.
2 - Nos três anos mais recentes, os ricos latino-americanos viram suas fortunas aumentar 20,4%, enquanto os pobres árabes donos do petróleo só ficaram 17,5% mais ricos. Os norte-americanos, então, tadinhos, engordaram suas contas apenas 4,4% (essa gente ainda vai morrer de fome nesse ritmo).
3 - Em que países os ricos ficaram ainda mais ricos? Adivinhou: Brasil, claro, o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores. Ah, no segundo lugar no torneio do enriquecimento aparece quem? Sim, ela, a Venezuela do "socialismo do século 21" (vai ver que é o socialismo que distribui renda para os ricos). Só depois é que aparece o Chile, que, desde a ditadura Pinochet, é o queridinho dos tais mercados.
Conclusão, algo óbvia, mas correta de Oppenheimer: "Em vez de ostentar o recorde de concentração de riqueza, a região deveria esforçar-se para ter maior número de indivíduos moderadamente ricos e muito menos pobres".
E o Brasil deveria parar de festejar lendas e misérias.
É exagerado dizer que a queda da desigualdade é lenda. Mas queda da desigualdade pode representar muita coisa. O "como" e o "por que" são fundamentais nesse debate. Me impressiona muito é que essa queda seja citada na sua maneira mais simples por aqueles que, sim, entendem do assunto, sabem que o buraco é muito mais embaixo, mas cismam em não olhar pra ele.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Rápidas

O que deu na Folha ontem para não trazer os resultados de Gramado na primeira página? Parecia mais preocupada com todos os detalhes das Olimpíadas e com a autopromoção da sabatina com o Win Wenders. Mas será que não tinha mesmo nenhum espacinho?

***
Não sei como foi no Brasil, mas por aqui os comentaristas esportivos torceram alucinadamente para o tal Michael Phelps. É engraçado ver os mexicanos aplicados se esforçando para fazer um "e" mais aberto em Phelps.

***
E em época de Olimpíadas viva os podcasts e a liberdade de escolha que eles nos dão! Que venha a Copa do Mundo!

***
Tenho chegado em casa com umas pintinhas pretas no corpo. E tenho resistido em acreditar que é por conta da poluição. ¡Dios mío!

domingo, 17 de agosto de 2008

Fortes e saudáveis



Não tem como fugir da comparação com o Central Park, já que é um parque cercado de ruas movimentadas por todos os lados. Mas o Viveros de Coyoacán é mais do que isso. É onde os mexicanos combatem aqueles que talvez sejam os dois principais males daqui: a poluição e a obesidade.

Trata-se de um viveiro adaptado para o lazer. Crianças dão amendoim aos numerosíssimos esquilos, toreiros (sim!) treinam com capas coloridas e chifres na praça central, atletas e amadores correm na pista de intenso tráfego, senhoras fazem ginástica e pesquisadoras de política social voltam a fazer tai chi depois de uma looonga pausa. Pois é! Encontrei um simpaticíssimo grupo que treina todos os domingos e fui recebida de braços abertos.

As mudas de plantas, todas nativas, são oferecidas àqueles que querem deixar mais arborizadas suas casas e ruas. O Viveros é mais um daqueles exemplos que cidades como essa daqui não podem ser vistas apenas como metrópoles poluídas. Ainda bem!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O cinema como ele merece

Aí está uma das melhores coisas dessa cidade. Em oito salas! Atendendo a pedidos, falo de cinema. A Cineteca Nacional é "o organismo governamental encarregado de resgatar, classificar, conservar e difundir as obras cinematográficas mais destacadas do México e do mundo". É assim que a descreve o guia cool "dF de Culto" acrescentando que a missão é sim séria, mas que o público que a frequenta é aquele que poderia se definir como seguidor do alternativo.

Descobri a Cineteca no ano passado, juntamente com o "El Violín", filme deslumbrante. Sai de lá cambaleando e me prometi voltar em breve. Na sexta passada foi lá que assisti (finalmente) a "Hiroshima, meu amor", que mesmo sendo tão antiga ainda merece nobres exibições por aqui.

Abaixo, pra quem ainda não teve a oportunidade de ver o filme, um pouquinho do violino e da doçura do saudoso Don Plutarco.

A rainha da anarcumbia

Pelo seu look, Amandititita me parece uma versão latina da Amy Winehouse. Seu nome faz referência a sua altura e o seu imenso sucesso no México indica mais uma vez que (ai, desculpem) tamanho não é documento. Aqui, pode-se ouvir um pouco das suas músicas. Na "Cumbia de Telmex", Amandititita diz que "el señor Slim remodela mi país" e na "La muy muy" fala de uma mulher que se acha, mas que é "más fea que el chupa-cabra, mas mala que Bush". No You Tube está o cômico vídeo do hit "Metrosexual".

***
Gosto muito do podcasts do Latino USA, um programa de rádio sobre a comunidade latina nos Estados Unidos que trata de temas que vão de culinária a migração e tem entre seus financiadores a Universidade do Texas. O programa dessa semana se titula "Los Grandes" e traz os perfis de três personalidades históricas da música mexicana: Lola Beltrán, José Alfredo Jiménez e Agustín Lara. Para os curiosos pela história da cultura mexicana, uma ótima.

***
E o blog do jornalista David Lida, que mora aqui e retrata o México como ninguém, traz essa semana uma história interessante sobre preconceito racial e nome de doces. Pois no Brasil também temos a nossa. Brigadeiro no Rio Grande do Sul é chamado de "negrinho", o que desperta os mais apaixonados debates sobre a necessidade ou não desses zelos politicamente corretos.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Começo das aulas

A universidade ficou mais movimentada ontem com a volta às aulas. Eu, com aquela sensação de "gente, como os universitários parecem mais jovens atualmente!" Sinal de velhice, pode ser...

***

Conhecer os mais antigos e não necessariamente mais poderosos é uma grande sabedoria que foi confirmada mais uma vez. A amizade da simpaticíssima Rosa Martha, secretária figuraça que desaconselha os professores mais nervosos a tomarem o café que ela prepara, é o grande passaporte para uma vida melhor. Ontem já pude tirar livros na biblioteca (coisa que só faria através do meu assistente) e amanhã recebo meu cartão magnético de entrada na universidade, dando adeus ao processo de registro diário na portaria.

***

Consegui minha tarjeta porque Rosa Martha telefonou a um departamento e disse que eu morava em Coyoacan, "muito perto", e que não vinha de carro ao ITAM "para o bem do país". Aqui a gente precisa justificar o fato de não ter carro.

***

Uma colega pesquisadora mora numa casa onde quatro graduandos de outras cidades também se hospedam durante o período letivo. Todos eles têm carro.

***

Mas o ITAM oferece a alunos e funcionários ônibus que saem das estações de metrô mais próximas. Ontem a trilha sonora do trajeto era Rolling Stones. Me senti no Surf Bus. Definitivamente sinal de velhice.

***

E para finalizar, vi ontem esses números que me assustaram. Achei que os defensores das penas mais duras não fossem tantos assim. A pesquisa é da Consulta Mitofsky e aqui se pode baixar o relatório completo.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A febre dos "rrôclonitos"

Os Rocklonitos fizeram um sucesso enorme na TV e agora vão virar bonequinhos "de verdade" e filme. Todos os personagens são cópias de personalidades mexicanas ou internacionais do mundo da música. Destaques para o sotaque mexicano de gringo e para a impagável versão da Shakira.
Todos os anúncios de comida na TV exibem essa mensagem "Come bien". Deve ter a ver com os altíssimos índices de obesidade mexicanos.



Aqui você pode ver os episódios 2, 3, 4, 5 e 6.

Ontem me diverti assistindo ao programa do cozinheiro Takehiro Ohno, no canal Gourmet. É engraçado espanhol com sotaque japonês.

sábado, 9 de agosto de 2008

Com a mulher maravilha é diferente?

Me deu um pouco de raiva da ironizinha final do apresentador da BBC durante esta entrevista com José Padilha. O diretor de Tropa de Elite, que estréia essa semana em Londres, tenta explicar de diversas maneiras por que fazer um filme sobre tortura não faz de você um defensor delas. Mas parece que o entrevistador não entende.
Aqui se pode baixar o MP3 ou assinar o podcast do The Film Programme, da Radio 4. Acredito que esta edição do programa ficará disponível só até a próxima sexta-feira. A entrevista com Padilha começa aos 16m47s de programa.

E parece que mais gente na Inglaterra não entendeu a mensagem que Padilha quis passar com o filme. Por que será? Arrisco dizer que é a falta de proximidade com o assunto, uma ingenuidade sobre acontecimentos distantes.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Vale quanto vale

O seqüestro terminado com a morte do "menor Fernando Martí" é o assunto da semana no México. A descoberta de seu corpo, há sete dias, aumentou os debates sobre o envolvimento da polícia (capitalina e, agora, a federal também) no crime, acirrou as tensões entre o governador do D.F. e Calderón, e reuniu numa missa autoridades de todas as partes do país, artistas e empresários de renome, como o multimilionário pop Carlos Slim.

Martí, filho de um próspero empresário do ramo de esportes, foi seqüestrado no dia 4 junho do ano passado. Desde então, a família chegou a negociar com os seqüestradores e pagou dois pedidos de resgate. Os contatos foram ficando cada vez mais esporádicos e o corpo do jovem acabou sendo encontrado na sexta passada, acredita-se que dois dias depois da morte, numa estrada na Cidade do México.

A bárbara tragédia chamou a atenção para esse tipo crescente de crime por aqui. Seqüestros ainda estão na moda (cada vez mais) no México.

Mas se, por um lado, parece que de alguma maneira os tipos de crime se diferem entre México e Brasil, por outro, parece ser semelhante a distinção no tratamento a tragédias em famílias mais abastadas em comparação a outras.

Os corpos de um dos seguranças e do motorista que prestavam serviços à Família Martí foram encontrados dias antes do de Fernando.

As matérias de jornal, os comentários nas ruas, os pedidos para que o México passe a admitir pena de morte fazem referência ao absurdo da morte de Martí. Dos seus empregados e do sofrimento de suas famílias pouco se sabe.

Como diria Ancelmo Gois, deve ser difícil viver num país onde o sofrimento dos ricos ganha mais páginas nos jornais e maior atenção dos políticos...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Licenciados, emos e hare krishnas

Mais difícil do que sair daqui com tudo o que tenho que pesquisar será entender completamente as formas de tratamento do mexicano. Hoje tive uma orientação mais precisa sobre tudo isso com a simpaticíssima editora da Foreign Affairs en Español, que é publicada pelo ITAM, onde estou instalada.
Trata-se por señor uma pessoa que não tem terceiro grau completo. Na dúvida, depedendo da situação, é melhor tratá-la por licenciado. Já ouvi pessoas se cumprimentando com "Buenos días, licenciado!" Assim mesmo, sem nome ou sobrenome.
No caso de mulher, a situação se complica ainda mais. Señorita é o default. Só chame de señora uma mulher com muitas, muitas rugas e mesmo assim esteja preparado para ouvir de volta um "Señora, no. Señorita, por favor" (e morrer de vergonha!) caso ela não seja casada.
Sobre o tu/usted, não é sempre que, se uma pessoa te tutea, você pode tutearla. É melhor pecar pelo excesso do que pela falta. E só chamá-la por tu se ela assim o pedir. Aperto de mão entre mulheres. Beijo em raríssissíssimos casos. Para uma estrangeira como eu, é melhor ter certeza de que o interlocutor está disposto a beijar apenas se ele der um puxão na sua mão e/ou aproximar o rosto. Caso isso aconteça, é um beijo só!

Aprendi outro dia que existiam grupos de jovens mudernos que se classificavam por "emo". Acho que cheguei de Marte há pouco e nunca tinha ouvido falar nisso. Hilário esse vídeo mostrando os problemas que enfrentam os emos daqui:

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O perrengue do Curp

Hoje foi o dia de sofrer. Não tinha a exata noção disso. Passei quatro horas de pé no Departamento de Migração para tirar o meu CURP, a Clave Única de Registro de Población, que me permitirá receber dinheiro no México. Eu e uma outra bolsista fomos levadas até lá pela diretora da instituição à qual sou pesquisadora associada. Lá já nos esperava, na extenssíssima fila, a faz-tudo-burocrática do centro de pesquisa.
É divertido ver que há muitos lugares semelhantes ao Brasil em termos de filas, fomulários, procedimentos, carimbos. Ao redor deste departamento, há uma série de pequenos escritórios que oferecem serviços semelhantes aos que vemos na Praça Mauá, ao redor da Polícia Federal. Paguei 4 reais para ter o meu formulário preenchido, para evitar qualquer erro que desse problema depois. Preenchi um novo formulário para pagar uma taxa de 120 dólares que, 30 minutos depois, pum!, descobrimos não ser necessária.
O meu fomulário tinha uma emoção a mais: sobrenome materno e paterno invertidos para os padrões hispânicos. E o paterno é composto por dois.
Achamos melhor transformar o paterno em materno e o materno em paterno para que não trocassem a forma original e eu corresse o risco de ter que fazer tudo de novo. A cada preenchimento de formulário, a grande decisão: preencho como realmente são ou como achamos que eles vão interpretar? Mas deu tudo certo no final.
De lá fui à Praça dos Celulares, no centro da cidade. Uma Rua da Alfândega de eletrônicos. Consegui desbloquear o meu celular num stand onde um casal de funcionários gordinhos ignorava o calor absurdo e se agarrava entre a troca de um chip e outro. Na vitrine, muitas placas e molduras de celulares espalhados, um muffin mordido dos dois lados e outro, de chocolate, ainda intacto. Mas deu tudo certo no final.

domingo, 3 de agosto de 2008

Cultura de supermercado

Por razões bastante óbvias para quem me conhece, um dos programas que mais gosto de fazer quando chego a uma nova cidade ou a um novo país é ir ao supermercado.
Desde criança ficava impressionada com a diferença da qualidade dos serviços e produtos entre as cadeias cariocas e gaúchas. Quem vive no Rio Grande do Sul tem um orgulho tremendo do Zaffari. (Ouvi uma vez uma história de que o Pão de Açúcar tentou comprá-lo, mas os gaúchos fizeram campanha de "O Zaffari é nosso", o que botou areia nos planos imperialistas paulistas.) Desenvolvi até uma teoria fajuta de que carioca não merece supermercado bom porque não tem tanto costume de "receber em casa" como o gaúcho. Será?
Em dois dias de México já fui a segunda vez ao supermercado, tentando transformar a minha linda cozinha em uma ativa cozinha também. Sabia que teria perto de mim um Wal-Mart. Eles estão em todo lugar por aqui. E como fazer para não frequentá-lo foi uma das primeiras perguntas que fiz aos meus senhorios.
Pois não é que tenho a três quadras de casa um supermercado típicamente mexicano? O Comercial Mexicana está muito longe de ser uma loja de comércio justo, mas simpatizei com o nome. Achei bem latino.
Alguns temas de destaque nas minhas incursões neste novo parque de diversões:
1) Cada caixa tem dois empacotadores. Eles são meninos novos e parece que competem para ver quem tem o cabelo mais bem modelado com aquele gumex brilhoso. Alguns parecem verdadeiras esculturas;
2) O menor pacote de guardanapos que encontrei traz 250 (!) unidades. Me recusei a trazer para casa o standard, de 500 unidades, e suei para encontrar o "menorzin". Fiquei pensando como faz um casal que viaja para uma casa de praia para passar dois dias. Tem que comprar aquilo tudo??
3) Mexicano come pão sim! E como! A padaria é imensa e vc escolhe os seus pães com uma bandejona de alumínio e um pegador de pão só pra vc;
4) A ciabata custa 40 centavos, uma pechincha para quem sabe o valor que cobra o Zona Sul;
5) Existe uma infinidade de cogumelos! Fiquei assustada com tamanha diversidade e me limitei a trazer cogumelos Paris frescos, a R$ 6 o quilo! Território totalmente a desvendar.
6) Pistache e queijo de cabra fresco também são assustadoramente mais baratos que no Brasil.

E para iniciar a lista de "Coisas que você jamais se arriscaria a dizer em portunhol, mas que na verdade existem em espanhol": "tic nervioso". Adorei!

sábado, 2 de agosto de 2008

Señorita en su castillo

Depois de uma bizarra conexão no aeroporto da Cidade do Panamá, que parece um InfoBarra do Caribe, a Cidade do México me recebeu cheia de frases terminadas em "señorita". Me orgulhei de ir identificando as ruas durante a aterrissagem e a minha orientação ao taxista fez ele se preocupar em me dizer que faria um desvio por causa da obra na Río Churubusco. Eu tinha ouvido um podcast sobre a confusão que está causando essa obra e pudemos conversar sobre o assunto. Haha! É bom estar aqui!
Numa dessas coincidências da vida, aluguei um apartamento de uma professora de sociologia da UNAM mestre pelo Iuperj e doutora pela USP cuja especialidade é política contra pobreza no México (tchã-ran!). Tivemos, o casal e eu, uma agradabilíssima conversa que começava com assuntos acadêmicos, passava pelas frutas mexicanas que não temos no Brasil e terminava com a entrega das chaves deste lindo castillo.
Belo início de viagem!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

De Nadie

Na semana passada o México foi na contramão da Europa, anunciando que a imigração irregular deixa de ser punida com prisão. A reforma da Lei de Povoação aproxima o país da maioria dos vizinhos latino-americanos em termos de legislação migratória, fazendo com que a estadia não-autorizada de estrangeiros seja uma infração civil, não criminal.


De Nadie é um documentário triste de morrer que mostra o sofrimento dos centro-americanos que tentam chegar aos EUA por terra e que enfrentam na fronteira sul do México procedimentos semelhantes aos aplicados aos mexicanos pelos americanos na fronteira norte. Passou no Festival do Rio de 2006.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Ele é um luxo!

"Não é um luxo tomar água de coco acessando a internet gratuitamente na Atlântica?", disse Sérgio Cabral como se estivesse na Riviera Francesa, divulgando sua mais nova estripulia. Há uns meses, nosso governador havia anunciado um sistema de bicicletas públicas semelhante ao de Paris sem dar um pio sobre as condições das ciclovias por aqui.



Sobre esta iniciativa, financiada pela Secretaria de Ciência e Tecnologia, algumas perguntas:

1) Como andam os projetos de inclusão digital nos bairros pobres da cidade?
2) Não era melhor esperar uns 15 dias para ver se esse policiamento reforçado é capaz pelo menos de garantir que Drumond fique com seus óculos?
3) Alguém pensou numa estratégia para que os moradores da Atlântica (que não precisarão mais assinar serviços de banda larga) reembolsem os prejuízos dos cybercafes de Copacabana?
3) Alguém aí já tentou usar um laptop no sol?

Afastando a clientela

"Ni en vacaciones el Bazar FUSION descansa, porque la fiebre del consumo, nunca termina."

Faltou a essa feira de moda no bairro de Roma, onde se concentram galerias descoladas e fica a simpática Casa Lamm, um publicitário mais sutil e atento à pontuação. Não faltou não?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O homem-aranha de Guerrero

Bernabe Mendez é do estado de Guerrero e trabalha como limpador de vidros de prédios novaiorquinos elegantes. Com seu trabalho, manda US$ 500 para a familia todo mês. Ele e outros imigrantes mexicanos foram fotografados por Dulce Pinzon em trajes de super-heróis desempenhando suas funções no dia-a-dia longe de casa.



***

Para aqueles que querem matar saudades de pérolas trash (by Tati).

sábado, 19 de julho de 2008

Que coincidência, não?


Em matéria do Salon de 05/07/2008.


No Eu & Fim de Semana, do Valor, em 18/07/2008.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Contra o tempo

Tá longe de ser novidade a constatação de que atualmente gasta-se muito mais tempo trabalhando em prol do "bem-estar". Mas me chocou esse anúncio publicado em uma revista mexicana, em julho passado. É impressionante também a quantidade de gente que usa esse bichinho no México. É muito mais do que aqui.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Ligeirinho na fronteira

Há décadas os roteiristas do Speedy Gonzalez já faziam piada com coisa séria



...agora o desenho ganhou um final novo, também de gosto duvidoso, pela Volkswagen.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Ándale!

Nopal é um dos cactus mexicanos comestíveis, uma das mais convencionais esquisitices gastronômicas do México (com duplo sentido, por favor).

O Farofa de Nopal será atualizado durante os próximos quatro meses, durante os quais sua autora estará na terra dos mariachis realizando parte de sua pesquisa de doutorado como pesquisadora associada ao Centro de Estudios y Programas Interamericanos (CEPI) do Instituto Tecnológico Autónomo de México (ITAM).