Parece um equivalente ao nosso Reveillon. O país todo pára e se dirige a um ponto específico da cidade, onde haverá shows e queima de fogos. No dia seguinte, as semelhanças ironicamente continuam: pelo menos
oito mortos, vítimas de explosões no meio dos festejos. Ainda não houve maiores esclarecimentos sobre o aparente atentado durante as comemorações pelo grito da independência em Morelia, que ganhou este nome por ter sido a cidade natal de um dos heróis, veja, da independência, José María Morelos.
As comemorações do grito aqui na capital aconteceram, talvez como em todos os anos anteriores, sob altíssimo policiamento. Para entrar no Zócalo, onde tanto o presidente Calderón quanto o presidente "legítimo" Obrador fariam seus gritos, toda a população foi revistada como num show de rock.
Me impressiona muito a importância dessa festa, o forte orgulho que o mexicano, pelo menos nessa data, não tenta esconder de ter nascido aqui. Nesse sentido, parecem-se com os brasileiros durante a Copa do Mundo. Até a bochecha pintada com as cores da bandeira é igualzinha.
Acompanhando a cidade progressivamente se pintar de verde, vermelho e branco durante as últimas três semanas, vim desenvolvendo minhas hipóteses para explicar o fenômeno: (1) Muita repressão durante o regime colonial e um extenso período de verdadeiros combates pela independência poderiam explicar porque o 16 de setembro daqui é tão mais festejado que o 7 de setembro daí; (2) Depois me veio a idéia, muito mais simplória, de que talvez essa fosse mais uma maneira que os mexicanos arrumaram de imitar os americanos: também queriam o seu 4 de julho.
Mas não. Parece que a maior explicação para tudo pode ser entendida a partir do grande promotor desse nacionalismo. Seu nome é Partido Revolucionário Institucional. Há quem diga que ao dizer que "ser mexicano é ser nacionalista e apoiar o partido do país", o PRI ia estendendo seus anos de apoio popular. É o partido com as cores da bandeira, obviamente.
Por muitos e muitos motivos cujas descrições tornariam esse post mais extenso ainda, é interessante notar como o nacionalismo me parece um conceito muito, mas muito mais mexicano do que brasileiro. Lendo discursos dos presidentes mais recentes para a pesquisa, encontrei algumas preciosidades que tentam relacionar "manutenção dos ideais da Revolução Mexicana" com a "necessidade de privatizações das empresas públicas".
Nesse trecho abaixo, durante a entrega de seu terceiro infome de governo, Salinas relaciona a implantação de seu criticadíssimo programa Solidaridad ao sempre presente nacionalismo mexicano, que naquele momento passava a ser constantemente associado, que ironia, à necessidade das reformas econômicas.
Por eso, el nuevo nacionalismo de la última década del siglo XX debe convertir en interés nacional el abatimiento de la pobreza. Los sentimientos nacionalistas, como elementos de cohesión social, son, por ello, sentimientos de solidaridad. No es extraño que el lema del combate a la pobreza extrema sea precisamente el de "solidaridad". El objetivo es asegurar la viabilidad económica y la estabilidad política en un clima de amplias libertades, como condición indispensable para emprender lo importante. Esto significa integrar en forma masiva a la población en la vida activa, económica y política de la nación. Dicho sencillamente, se trata de lograr mayor justicia: justicia social. Esta justicia no puede reducirse a un mero esquema redistributivo de transferencia de recursos. El nacionalismo demanda la participación organizada. La mejor distribución del ingreso y la promoción de la justicia constituyen compromisos irrenunciables del Estado mexicano. El nacionalismo de la última década del siglo es democrático, participativo, tolerante, defensor de libertades, productivo y promotor de la justicia en la realización del interés nacional.