É ou não é um primor de correção política?? Um (dodgy) ricaço loiro em seu Dodge escapa sorridente do limpador de vidros com traços indígenas que o trata por usted. Saiu, veja só, na (ótima) Chilango.
domingo, 31 de agosto de 2008
É mole?
É ou não é um primor de correção política?? Um (dodgy) ricaço loiro em seu Dodge escapa sorridente do limpador de vidros com traços indígenas que o trata por usted. Saiu, veja só, na (ótima) Chilango.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Dia do Índio
São muitos os que dizem que a nossa Constituição é linda no papel, mas que poucos direitos ela pôde realmente garantir. É de se comemorar, então, um dia como o de ontem. Que isso sirva de inspiração (ou de intimidação) não só para o resto dos que tomam decisões pelos brasileiros. Que também se ouça falar disso nesse país aí ao lado, que tenta resolver problemas de institucionalidade e de injustiças sociais, mas que esbarra em resistências proporcionalmente até bem maiores.Dia do Índio no Supremo
Dia do Índio no Supremo
Marcelo Leite
Folha de S. Paulo
ONTEM FOI Dia do Índio no Supremo Tribunal Federal (STF). Nada impede que mais à frente o julgamento da demarcação da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol (TIRSS) acabe num Dia do Arrozeiro, mas tal desfecho parece agora menos provável.
O voto do relator Carlos Ayres Britto veio com ímpeto demolidor. Britto não se limitou a declarar a improcedência da ação popular. Tratorou, um por um, os débeis argumentos alinhavados na ação movida no interesse de meia dúzia de fazendeiros de arroz.
Para o relator, não faz sentido falar em subtração de áreas a uma unidade da Federação, pois os índios já estavam lá antes da criação do Estado de Roraima. Seu direito à terra é originário, reza a Constituição. Os rizicultores só multiplicaram plantações depois de 1992, mas o processo de demarcação começou em 1977. Os índios foram enxotados e escorraçados, no que descreveu como "espremedura topográfica".
Terras indígenas não são territórios, deixa claro a Constituição. Ela é que garante seu usufruto pelos índios brasileiros, que não precisam de uma Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas. Demarcação e homologação são meros atos declaratórios, reconhecimento de um direito preexistente.
O laudo antropológico que atesta a ocupação contínua e pacífica pelas cinco etnias não merece ser qualificado como fraude ou generalidade. Toda a metodologia prescrita na legislação foi seguida. O contraditório e o direito de defesa foram amplamente exercidos.
Índios não atrapalham o desenvolvimento. Não impedem a defesa de fronteiras -ao contrário. E por aí foi...
O ponto alto do relatório, porém, foi o reiterado elogio à generosidade da Constituição de 1988 com os índios. Britto afirmou que ela se encontra na vanguarda mundial por "não antagonizar colonização e indigenato" e pautar-se por um espírito fraternal e solidário, contra o "ignominioso preconceito" antiindígena.
Encarando de frente aqueles que vêem nos índios um sinônimo de atraso, disse que a Constituição nos redime perante nós mesmos de uma insensatez histórica, só comparável à escravidão. Disse mais: que nos índios está o primeiro elo da identidade nacional. E que o "doravante" de Roraima não apaga o seu "desde sempre".
Era tudo que os "civilizados com aspas" não queriam ouvir. Carlos Alberto Menezes Direito pediu vistas. O Dia do Arrozeiro fica adiado, e pode talvez nunca chegar.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Um pouco mais ao norte
Pela descrição dos jornais e pelo que se vê em filmes, Tijuana parece a versão comtemporânea das cidades de faroeste. Tijuaneados Anónimos é uma associação de pessoas que vivem na cidade e se encontram para falar das dificuldades da vida cercada pela forte presença do tráfico de drogas. Comando Vermelho parece ser fichinha.
O Museo de Arte de San Diego, a vizinha do norte, exibiu até junho uma réplica da sala das sessões do grupo.

Já esse pessoal se expressa de outra maneira. O Nortec Collective é um grupo de músicos da cidade que mistura sons noteños com as modernidades da música eletrônica. Tem umas coisas não muito boas, mas eu gostei muito da Funky Tamazula. Pode-se ouvir uma partezinha dela aqui.
O Museo de Arte de San Diego, a vizinha do norte, exibiu até junho uma réplica da sala das sessões do grupo.

Já esse pessoal se expressa de outra maneira. O Nortec Collective é um grupo de músicos da cidade que mistura sons noteños com as modernidades da música eletrônica. Tem umas coisas não muito boas, mas eu gostei muito da Funky Tamazula. Pode-se ouvir uma partezinha dela aqui.
domingo, 24 de agosto de 2008
O outro lado
A sensação na saída do cinema foi de embaraço pela descoberta (mais uma vez!) de que mesmo quando se lê muito pode-se não estar tão bem informado quanto se pensa. Muitas vezes, até, acontece exatamente o contrário.
Fraude: México 2006 é "um filme de milhões de mexicanos, dirigido por Luis Mandoki". Assim o apresentam seus produtores.
O filme, claramente partidário do PRD e da eleição de Lopez Obrador, usa imagens feitas por pelos menos 19 pessoas (contamos, durante a subida dos créditos) para mostrar a fragilidade hedionda do sistema eleitoral mexicano, omitida por TVs e jornais de grande circulação. Um quebra-cabeça belamente montado com um material bruto que somava mais de 300 horas de imagens reunidas de várias partes do país durante a contagem e a "recontagem" dos votos.
Abaixo, os primeiros minutos do filme:
Fraude: México 2006 é "um filme de milhões de mexicanos, dirigido por Luis Mandoki". Assim o apresentam seus produtores.
O filme, claramente partidário do PRD e da eleição de Lopez Obrador, usa imagens feitas por pelos menos 19 pessoas (contamos, durante a subida dos créditos) para mostrar a fragilidade hedionda do sistema eleitoral mexicano, omitida por TVs e jornais de grande circulação. Um quebra-cabeça belamente montado com um material bruto que somava mais de 300 horas de imagens reunidas de várias partes do país durante a contagem e a "recontagem" dos votos.
Abaixo, os primeiros minutos do filme:
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Bom de ler
Soterrada por livros acadêmicos, páginas de Diário Oficial e discursos de políticos, me senti feliz em poder dar uma respirada lendo uma narrativa mais amigável e nem por isso menos interessante."Opening Mexico: The making of a democracy" conta através da história de pessoas comuns o processo de democratização do país. O livro começa narrando a noite passada em claro por Conchalupe, uma mulher Monterrey que no dia seguinte seria observadora voluntária das eleições de 2000. O histórico momento em que os mexicanos encerraram, nas urnas, as mais de sete décadas de "dinastia PRI" é contado pelos olhos desta neta de um dos quatro políticos da oposição que, em 1946, haviam pela primeira vez conquistado assentos no Congresso Federal. Na época de seu avô "a hegemonia priista era tão sólida que muitos acham que apenas loucos ou masoquistas poderiam querer concorrer aos cargos". Julia Preston e Samuel Dillon são premiados repórteres do New York Times e seu livro mostra a intimidade que têm com a complicada política mexicana. Post inspirado na chegada do Douglas e nas muitas parcerias que se originaram no trabalho - e seguiram para a vida - que vemos por aí. A partir de hoje, passo a narrar algumas coisas nesse blog na primeira pessoa do plural. :-)
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Nem tão Papai Noel, nem tão grande conquista
Clóvis Rossi citando Oppenheimer elogiosamente eu não esperava, mas vale a leitura. Saiu hoje, na Folha de S. Paulo:
Visita ao país dos ricos mais ricos
É exagerado dizer que a queda da desigualdade é lenda. Mas queda da desigualdade pode representar muita coisa. O "como" e o "por que" são fundamentais nesse debate. Me impressiona muito é que essa queda seja citada na sua maneira mais simples por aqueles que, sim, entendem do assunto, sabem que o buraco é muito mais embaixo, mas cismam em não olhar pra ele.
Visita ao país dos ricos mais ricos
Clóvis Rossi
SANTANDER - Já tratei recentemente, neste espaço, da lenda da queda da desigualdade e dos números da miséria brasileira, explicitada em pesquisa que o Ibase (a ONG do Betinho) fez com os beneficiados pela Bolsa Família.
Faltava só visitar os ricos.
Andrés Oppenheimer ("Miami Herald", prêmio Pullitzer) se antecipou e mostra o que só pode ser surpresa para os que acreditam em duendes ou na lenda da queda da desigualdade.
Vejamos os dados por ele coletados no "Informe Mundial da Riqueza-2008", preparado por Capgemini e Merrill Lynch:
1 - Os ricos da América Latina estão enriquecendo mais rapidamente que seus pares de todas as demais regiões do mundo e já acumularam US$ 6,2 bilhões em valores financeiros, sem contar imóveis e coleções de arte.
2 - Nos três anos mais recentes, os ricos latino-americanos viram suas fortunas aumentar 20,4%, enquanto os pobres árabes donos do petróleo só ficaram 17,5% mais ricos. Os norte-americanos, então, tadinhos, engordaram suas contas apenas 4,4% (essa gente ainda vai morrer de fome nesse ritmo).
3 - Em que países os ricos ficaram ainda mais ricos? Adivinhou: Brasil, claro, o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores. Ah, no segundo lugar no torneio do enriquecimento aparece quem? Sim, ela, a Venezuela do "socialismo do século 21" (vai ver que é o socialismo que distribui renda para os ricos). Só depois é que aparece o Chile, que, desde a ditadura Pinochet, é o queridinho dos tais mercados.
Conclusão, algo óbvia, mas correta de Oppenheimer: "Em vez de ostentar o recorde de concentração de riqueza, a região deveria esforçar-se para ter maior número de indivíduos moderadamente ricos e muito menos pobres".
E o Brasil deveria parar de festejar lendas e misérias.
É exagerado dizer que a queda da desigualdade é lenda. Mas queda da desigualdade pode representar muita coisa. O "como" e o "por que" são fundamentais nesse debate. Me impressiona muito é que essa queda seja citada na sua maneira mais simples por aqueles que, sim, entendem do assunto, sabem que o buraco é muito mais embaixo, mas cismam em não olhar pra ele.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Rápidas
O que deu na Folha ontem para não trazer os resultados de Gramado na primeira página? Parecia mais preocupada com todos os detalhes das Olimpíadas e com a autopromoção da sabatina com o Win Wenders. Mas será que não tinha mesmo nenhum espacinho?
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Não sei como foi no Brasil, mas por aqui os comentaristas esportivos torceram alucinadamente para o tal Michael Phelps. É engraçado ver os mexicanos aplicados se esforçando para fazer um "e" mais aberto em Phelps.
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E em época de Olimpíadas viva os podcasts e a liberdade de escolha que eles nos dão! Que venha a Copa do Mundo!
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Tenho chegado em casa com umas pintinhas pretas no corpo. E tenho resistido em acreditar que é por conta da poluição. ¡Dios mío!
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domingo, 17 de agosto de 2008
Fortes e saudáveis
Não tem como fugir da comparação com o Central Park, já que é um parque cercado de ruas movimentadas por todos os lados. Mas o Viveros de Coyoacán é mais do que isso. É onde os mexicanos combatem aqueles que talvez sejam os dois principais males daqui: a poluição e a obesidade.
Trata-se de um viveiro adaptado para o lazer. Crianças dão amendoim aos numerosíssimos esquilos, toreiros (sim!) treinam com capas coloridas e chifres na praça central, atletas e amadores correm na pista de intenso tráfego, senhoras fazem ginástica e pesquisadoras de política social voltam a fazer tai chi depois de uma looonga pausa. Pois é! Encontrei um simpaticíssimo grupo que treina todos os domingos e fui recebida de braços abertos.
As mudas de plantas, todas nativas, são oferecidas àqueles que querem deixar mais arborizadas suas casas e ruas. O Viveros é mais um daqueles exemplos que cidades como essa daqui não podem ser vistas apenas como metrópoles poluídas. Ainda bem!
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
O cinema como ele merece
Aí está uma das melhores coisas dessa cidade. Em oito salas! Atendendo a pedidos, falo de cinema. A Cineteca Nacional é "o organismo governamental encarregado de resgatar, classificar, conservar e difundir as obras cinematográficas mais destacadas do México e do mundo". É assim que a descreve o guia cool "dF de Culto" acrescentando que a missão é sim séria, mas que o público que a frequenta é aquele que poderia se definir como seguidor do alternativo.Descobri a Cineteca no ano passado, juntamente com o "El Violín", filme deslumbrante. Sai de lá cambaleando e me prometi voltar em breve. Na sexta passada foi lá que assisti (finalmente) a "Hiroshima, meu amor", que mesmo sendo tão antiga ainda merece nobres exibições por aqui.
Abaixo, pra quem ainda não teve a oportunidade de ver o filme, um pouquinho do violino e da doçura do saudoso Don Plutarco.
A rainha da anarcumbia
Pelo seu look, Amandititita me parece uma versão latina da Amy Winehouse. Seu nome faz referência a sua altura e o seu imenso sucesso no México indica mais uma vez que (ai, desculpem) tamanho não é documento. Aqui, pode-se ouvir um pouco das suas músicas. Na "Cumbia de Telmex", Amandititita diz que "el señor Slim remodela mi país" e na "La muy muy" fala de uma mulher que se acha, mas que é "más fea que el chupa-cabra, mas mala que Bush". No You Tube está o cômico vídeo do hit "Metrosexual".***
***
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Começo das aulas
A universidade ficou mais movimentada ontem com a volta às aulas. Eu, com aquela sensação de "gente, como os universitários parecem mais jovens atualmente!" Sinal de velhice, pode ser...
***
Conhecer os mais antigos e não necessariamente mais poderosos é uma grande sabedoria que foi confirmada mais uma vez. A amizade da simpaticíssima Rosa Martha, secretária figuraça que desaconselha os professores mais nervosos a tomarem o café que ela prepara, é o grande passaporte para uma vida melhor. Ontem já pude tirar livros na biblioteca (coisa que só faria através do meu assistente) e amanhã recebo meu cartão magnético de entrada na universidade, dando adeus ao processo de registro diário na portaria.
***
Consegui minha tarjeta porque Rosa Martha telefonou a um departamento e disse que eu morava em Coyoacan, "muito perto", e que não vinha de carro ao ITAM "para o bem do país". Aqui a gente precisa justificar o fato de não ter carro.
***
Uma colega pesquisadora mora numa casa onde quatro graduandos de outras cidades também se hospedam durante o período letivo. Todos eles têm carro.
***
Mas o ITAM oferece a alunos e funcionários ônibus que saem das estações de metrô mais próximas. Ontem a trilha sonora do trajeto era Rolling Stones. Me senti no Surf Bus. Definitivamente sinal de velhice.
***
E para finalizar, vi ontem esses números que me assustaram. Achei que os defensores das penas mais duras não fossem tantos assim. A pesquisa é da Consulta Mitofsky e aqui se pode baixar o relatório completo.
***
Conhecer os mais antigos e não necessariamente mais poderosos é uma grande sabedoria que foi confirmada mais uma vez. A amizade da simpaticíssima Rosa Martha, secretária figuraça que desaconselha os professores mais nervosos a tomarem o café que ela prepara, é o grande passaporte para uma vida melhor. Ontem já pude tirar livros na biblioteca (coisa que só faria através do meu assistente) e amanhã recebo meu cartão magnético de entrada na universidade, dando adeus ao processo de registro diário na portaria.
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Consegui minha tarjeta porque Rosa Martha telefonou a um departamento e disse que eu morava em Coyoacan, "muito perto", e que não vinha de carro ao ITAM "para o bem do país". Aqui a gente precisa justificar o fato de não ter carro.
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Uma colega pesquisadora mora numa casa onde quatro graduandos de outras cidades também se hospedam durante o período letivo. Todos eles têm carro.
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Mas o ITAM oferece a alunos e funcionários ônibus que saem das estações de metrô mais próximas. Ontem a trilha sonora do trajeto era Rolling Stones. Me senti no Surf Bus. Definitivamente sinal de velhice.
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E para finalizar, vi ontem esses números que me assustaram. Achei que os defensores das penas mais duras não fossem tantos assim. A pesquisa é da Consulta Mitofsky e aqui se pode baixar o relatório completo.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
A febre dos "rrôclonitos"
Os Rocklonitos fizeram um sucesso enorme na TV e agora vão virar bonequinhos "de verdade" e filme. Todos os personagens são cópias de personalidades mexicanas ou internacionais do mundo da música. Destaques para o sotaque mexicano de gringo e para a impagável versão da Shakira.
Todos os anúncios de comida na TV exibem essa mensagem "Come bien". Deve ter a ver com os altíssimos índices de obesidade mexicanos.
Aqui você pode ver os episódios 2, 3, 4, 5 e 6.
Ontem me diverti assistindo ao programa do cozinheiro Takehiro Ohno, no canal Gourmet. É engraçado espanhol com sotaque japonês.
Todos os anúncios de comida na TV exibem essa mensagem "Come bien". Deve ter a ver com os altíssimos índices de obesidade mexicanos.
Aqui você pode ver os episódios 2, 3, 4, 5 e 6.
Ontem me diverti assistindo ao programa do cozinheiro Takehiro Ohno, no canal Gourmet. É engraçado espanhol com sotaque japonês.
sábado, 9 de agosto de 2008
Com a mulher maravilha é diferente?
Me deu um pouco de raiva da ironizinha final do apresentador da BBC durante esta entrevista com José Padilha. O diretor de Tropa de Elite, que estréia essa semana em Londres, tenta explicar de diversas maneiras por que fazer um filme sobre tortura não faz de você um defensor delas. Mas parece que o entrevistador não entende.Aqui se pode baixar o MP3 ou assinar o podcast do The Film Programme, da Radio 4. Acredito que esta edição do programa ficará disponível só até a próxima sexta-feira. A entrevista com Padilha começa aos 16m47s de programa.
E parece que mais gente na Inglaterra não entendeu a mensagem que Padilha quis passar com o filme. Por que será? Arrisco dizer que é a falta de proximidade com o assunto, uma ingenuidade sobre acontecimentos distantes.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Vale quanto vale
O seqüestro terminado com a morte do "menor Fernando Martí" é o assunto da semana no México. A descoberta de seu corpo, há sete dias, aumentou os debates sobre o envolvimento da polícia (capitalina e, agora, a federal também) no crime, acirrou as tensões entre o governador do D.F. e Calderón, e reuniu numa missa autoridades de todas as partes do país, artistas e empresários de renome, como o multimilionário pop Carlos Slim.
Martí, filho de um próspero empresário do ramo de esportes, foi seqüestrado no dia 4 junho do ano passado. Desde então, a família chegou a negociar com os seqüestradores e pagou dois pedidos de resgate. Os contatos foram ficando cada vez mais esporádicos e o corpo do jovem acabou sendo encontrado na sexta passada, acredita-se que dois dias depois da morte, numa estrada na Cidade do México.
A bárbara tragédia chamou a atenção para esse tipo crescente de crime por aqui. Seqüestros ainda estão na moda (cada vez mais) no México.
Mas se, por um lado, parece que de alguma maneira os tipos de crime se diferem entre México e Brasil, por outro, parece ser semelhante a distinção no tratamento a tragédias em famílias mais abastadas em comparação a outras.
Os corpos de um dos seguranças e do motorista que prestavam serviços à Família Martí foram encontrados dias antes do de Fernando.
As matérias de jornal, os comentários nas ruas, os pedidos para que o México passe a admitir pena de morte fazem referência ao absurdo da morte de Martí. Dos seus empregados e do sofrimento de suas famílias pouco se sabe.
Como diria Ancelmo Gois, deve ser difícil viver num país onde o sofrimento dos ricos ganha mais páginas nos jornais e maior atenção dos políticos...
Martí, filho de um próspero empresário do ramo de esportes, foi seqüestrado no dia 4 junho do ano passado. Desde então, a família chegou a negociar com os seqüestradores e pagou dois pedidos de resgate. Os contatos foram ficando cada vez mais esporádicos e o corpo do jovem acabou sendo encontrado na sexta passada, acredita-se que dois dias depois da morte, numa estrada na Cidade do México.
A bárbara tragédia chamou a atenção para esse tipo crescente de crime por aqui. Seqüestros ainda estão na moda (cada vez mais) no México.
Mas se, por um lado, parece que de alguma maneira os tipos de crime se diferem entre México e Brasil, por outro, parece ser semelhante a distinção no tratamento a tragédias em famílias mais abastadas em comparação a outras.
Os corpos de um dos seguranças e do motorista que prestavam serviços à Família Martí foram encontrados dias antes do de Fernando.
As matérias de jornal, os comentários nas ruas, os pedidos para que o México passe a admitir pena de morte fazem referência ao absurdo da morte de Martí. Dos seus empregados e do sofrimento de suas famílias pouco se sabe.
Como diria Ancelmo Gois, deve ser difícil viver num país onde o sofrimento dos ricos ganha mais páginas nos jornais e maior atenção dos políticos...
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Licenciados, emos e hare krishnas
Mais difícil do que sair daqui com tudo o que tenho que pesquisar será entender completamente as formas de tratamento do mexicano. Hoje tive uma orientação mais precisa sobre tudo isso com a simpaticíssima editora da Foreign Affairs en Español, que é publicada pelo ITAM, onde estou instalada.
Trata-se por señor uma pessoa que não tem terceiro grau completo. Na dúvida, depedendo da situação, é melhor tratá-la por licenciado. Já ouvi pessoas se cumprimentando com "Buenos días, licenciado!" Assim mesmo, sem nome ou sobrenome.
No caso de mulher, a situação se complica ainda mais. Señorita é o default. Só chame de señora uma mulher com muitas, muitas rugas e mesmo assim esteja preparado para ouvir de volta um "Señora, no. Señorita, por favor" (e morrer de vergonha!) caso ela não seja casada.
Sobre o tu/usted, não é sempre que, se uma pessoa te tutea, você pode tutearla. É melhor pecar pelo excesso do que pela falta. E só chamá-la por tu se ela assim o pedir. Aperto de mão entre mulheres. Beijo em raríssissíssimos casos. Para uma estrangeira como eu, é melhor ter certeza de que o interlocutor está disposto a beijar apenas se ele der um puxão na sua mão e/ou aproximar o rosto. Caso isso aconteça, é um beijo só!
Aprendi outro dia que existiam grupos de jovens mudernos que se classificavam por "emo". Acho que cheguei de Marte há pouco e nunca tinha ouvido falar nisso. Hilário esse vídeo mostrando os problemas que enfrentam os emos daqui:
Trata-se por señor uma pessoa que não tem terceiro grau completo. Na dúvida, depedendo da situação, é melhor tratá-la por licenciado. Já ouvi pessoas se cumprimentando com "Buenos días, licenciado!" Assim mesmo, sem nome ou sobrenome.
No caso de mulher, a situação se complica ainda mais. Señorita é o default. Só chame de señora uma mulher com muitas, muitas rugas e mesmo assim esteja preparado para ouvir de volta um "Señora, no. Señorita, por favor" (e morrer de vergonha!) caso ela não seja casada.
Sobre o tu/usted, não é sempre que, se uma pessoa te tutea, você pode tutearla. É melhor pecar pelo excesso do que pela falta. E só chamá-la por tu se ela assim o pedir. Aperto de mão entre mulheres. Beijo em raríssissíssimos casos. Para uma estrangeira como eu, é melhor ter certeza de que o interlocutor está disposto a beijar apenas se ele der um puxão na sua mão e/ou aproximar o rosto. Caso isso aconteça, é um beijo só!
Aprendi outro dia que existiam grupos de jovens mudernos que se classificavam por "emo". Acho que cheguei de Marte há pouco e nunca tinha ouvido falar nisso. Hilário esse vídeo mostrando os problemas que enfrentam os emos daqui:
terça-feira, 5 de agosto de 2008
O perrengue do Curp
Hoje foi o dia de sofrer. Não tinha a exata noção disso. Passei quatro horas de pé no Departamento de Migração para tirar o meu CURP, a Clave Única de Registro de Población, que me permitirá receber dinheiro no México. Eu e uma outra bolsista fomos levadas até lá pela diretora da instituição à qual sou pesquisadora associada. Lá já nos esperava, na extenssíssima fila, a faz-tudo-burocrática do centro de pesquisa.
É divertido ver que há muitos lugares semelhantes ao Brasil em termos de filas, fomulários, procedimentos, carimbos. Ao redor deste departamento, há uma série de pequenos escritórios que oferecem serviços semelhantes aos que vemos na Praça Mauá, ao redor da Polícia Federal. Paguei 4 reais para ter o meu formulário preenchido, para evitar qualquer erro que desse problema depois. Preenchi um novo formulário para pagar uma taxa de 120 dólares que, 30 minutos depois, pum!, descobrimos não ser necessária.
O meu fomulário tinha uma emoção a mais: sobrenome materno e paterno invertidos para os padrões hispânicos. E o paterno é composto por dois.
Achamos melhor transformar o paterno em materno e o materno em paterno para que não trocassem a forma original e eu corresse o risco de ter que fazer tudo de novo. A cada preenchimento de formulário, a grande decisão: preencho como realmente são ou como achamos que eles vão interpretar? Mas deu tudo certo no final.
De lá fui à Praça dos Celulares, no centro da cidade. Uma Rua da Alfândega de eletrônicos. Consegui desbloquear o meu celular num stand onde um casal de funcionários gordinhos ignorava o calor absurdo e se agarrava entre a troca de um chip e outro. Na vitrine, muitas placas e molduras de celulares espalhados, um muffin mordido dos dois lados e outro, de chocolate, ainda intacto. Mas deu tudo certo no final.
É divertido ver que há muitos lugares semelhantes ao Brasil em termos de filas, fomulários, procedimentos, carimbos. Ao redor deste departamento, há uma série de pequenos escritórios que oferecem serviços semelhantes aos que vemos na Praça Mauá, ao redor da Polícia Federal. Paguei 4 reais para ter o meu formulário preenchido, para evitar qualquer erro que desse problema depois. Preenchi um novo formulário para pagar uma taxa de 120 dólares que, 30 minutos depois, pum!, descobrimos não ser necessária.
O meu fomulário tinha uma emoção a mais: sobrenome materno e paterno invertidos para os padrões hispânicos. E o paterno é composto por dois.
Achamos melhor transformar o paterno em materno e o materno em paterno para que não trocassem a forma original e eu corresse o risco de ter que fazer tudo de novo. A cada preenchimento de formulário, a grande decisão: preencho como realmente são ou como achamos que eles vão interpretar? Mas deu tudo certo no final.
De lá fui à Praça dos Celulares, no centro da cidade. Uma Rua da Alfândega de eletrônicos. Consegui desbloquear o meu celular num stand onde um casal de funcionários gordinhos ignorava o calor absurdo e se agarrava entre a troca de um chip e outro. Na vitrine, muitas placas e molduras de celulares espalhados, um muffin mordido dos dois lados e outro, de chocolate, ainda intacto. Mas deu tudo certo no final.
domingo, 3 de agosto de 2008
Cultura de supermercado
Por razões bastante óbvias para quem me conhece, um dos programas que mais gosto de fazer quando chego a uma nova cidade ou a um novo país é ir ao supermercado.
Desde criança ficava impressionada com a diferença da qualidade dos serviços e produtos entre as cadeias cariocas e gaúchas. Quem vive no Rio Grande do Sul tem um orgulho tremendo do Zaffari. (Ouvi uma vez uma história de que o Pão de Açúcar tentou comprá-lo, mas os gaúchos fizeram campanha de "O Zaffari é nosso", o que botou areia nos planos imperialistas paulistas.) Desenvolvi até uma teoria fajuta de que carioca não merece supermercado bom porque não tem tanto costume de "receber em casa" como o gaúcho. Será?
Em dois dias de México já fui a segunda vez ao supermercado, tentando transformar a minha linda cozinha em uma ativa cozinha também. Sabia que teria perto de mim um Wal-Mart. Eles estão em todo lugar por aqui. E como fazer para não frequentá-lo foi uma das primeiras perguntas que fiz aos meus senhorios.
Pois não é que tenho a três quadras de casa um supermercado típicamente mexicano? O Comercial Mexicana está muito longe de ser uma loja de comércio justo, mas simpatizei com o nome. Achei bem latino.
Alguns temas de destaque nas minhas incursões neste novo parque de diversões:
1) Cada caixa tem dois empacotadores. Eles são meninos novos e parece que competem para ver quem tem o cabelo mais bem modelado com aquele gumex brilhoso. Alguns parecem verdadeiras esculturas;
2) O menor pacote de guardanapos que encontrei traz 250 (!) unidades. Me recusei a trazer para casa o standard, de 500 unidades, e suei para encontrar o "menorzin". Fiquei pensando como faz um casal que viaja para uma casa de praia para passar dois dias. Tem que comprar aquilo tudo??
3) Mexicano come pão sim! E como! A padaria é imensa e vc escolhe os seus pães com uma bandejona de alumínio e um pegador de pão só pra vc;
4) A ciabata custa 40 centavos, uma pechincha para quem sabe o valor que cobra o Zona Sul;
5) Existe uma infinidade de cogumelos! Fiquei assustada com tamanha diversidade e me limitei a trazer cogumelos Paris frescos, a R$ 6 o quilo! Território totalmente a desvendar.
6) Pistache e queijo de cabra fresco também são assustadoramente mais baratos que no Brasil.
E para iniciar a lista de "Coisas que você jamais se arriscaria a dizer em portunhol, mas que na verdade existem em espanhol": "tic nervioso". Adorei!
Desde criança ficava impressionada com a diferença da qualidade dos serviços e produtos entre as cadeias cariocas e gaúchas. Quem vive no Rio Grande do Sul tem um orgulho tremendo do Zaffari. (Ouvi uma vez uma história de que o Pão de Açúcar tentou comprá-lo, mas os gaúchos fizeram campanha de "O Zaffari é nosso", o que botou areia nos planos imperialistas paulistas.) Desenvolvi até uma teoria fajuta de que carioca não merece supermercado bom porque não tem tanto costume de "receber em casa" como o gaúcho. Será?
Em dois dias de México já fui a segunda vez ao supermercado, tentando transformar a minha linda cozinha em uma ativa cozinha também. Sabia que teria perto de mim um Wal-Mart. Eles estão em todo lugar por aqui. E como fazer para não frequentá-lo foi uma das primeiras perguntas que fiz aos meus senhorios.
Pois não é que tenho a três quadras de casa um supermercado típicamente mexicano? O Comercial Mexicana está muito longe de ser uma loja de comércio justo, mas simpatizei com o nome. Achei bem latino.
Alguns temas de destaque nas minhas incursões neste novo parque de diversões:
1) Cada caixa tem dois empacotadores. Eles são meninos novos e parece que competem para ver quem tem o cabelo mais bem modelado com aquele gumex brilhoso. Alguns parecem verdadeiras esculturas;
2) O menor pacote de guardanapos que encontrei traz 250 (!) unidades. Me recusei a trazer para casa o standard, de 500 unidades, e suei para encontrar o "menorzin". Fiquei pensando como faz um casal que viaja para uma casa de praia para passar dois dias. Tem que comprar aquilo tudo??
3) Mexicano come pão sim! E como! A padaria é imensa e vc escolhe os seus pães com uma bandejona de alumínio e um pegador de pão só pra vc;
4) A ciabata custa 40 centavos, uma pechincha para quem sabe o valor que cobra o Zona Sul;
5) Existe uma infinidade de cogumelos! Fiquei assustada com tamanha diversidade e me limitei a trazer cogumelos Paris frescos, a R$ 6 o quilo! Território totalmente a desvendar.
6) Pistache e queijo de cabra fresco também são assustadoramente mais baratos que no Brasil.
E para iniciar a lista de "Coisas que você jamais se arriscaria a dizer em portunhol, mas que na verdade existem em espanhol": "tic nervioso". Adorei!
sábado, 2 de agosto de 2008
Señorita en su castillo
Depois de uma bizarra conexão no aeroporto da Cidade do Panamá, que parece um InfoBarra do Caribe, a Cidade do México me recebeu cheia de frases terminadas em "señorita". Me orgulhei de ir identificando as ruas durante a aterrissagem e a minha orientação ao taxista fez ele se preocupar em me dizer que faria um desvio por causa da obra na Río Churubusco. Eu tinha ouvido um podcast sobre a confusão que está causando essa obra e pudemos conversar sobre o assunto. Haha! É bom estar aqui!
Numa dessas coincidências da vida, aluguei um apartamento de uma professora de sociologia da UNAM mestre pelo Iuperj e doutora pela USP cuja especialidade é política contra pobreza no México (tchã-ran!). Tivemos, o casal e eu, uma agradabilíssima conversa que começava com assuntos acadêmicos, passava pelas frutas mexicanas que não temos no Brasil e terminava com a entrega das chaves deste lindo castillo.
Belo início de viagem!
Numa dessas coincidências da vida, aluguei um apartamento de uma professora de sociologia da UNAM mestre pelo Iuperj e doutora pela USP cuja especialidade é política contra pobreza no México (tchã-ran!). Tivemos, o casal e eu, uma agradabilíssima conversa que começava com assuntos acadêmicos, passava pelas frutas mexicanas que não temos no Brasil e terminava com a entrega das chaves deste lindo castillo.
Belo início de viagem!
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